Domingo, 26 de Maio de 2013
consequencias da 2ª g.Guerra

                  CONSEQUÊNCIAS DA SEGUNDA

                             GRANDE GUERRA

 

 

      Quando em 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu o corredor de Dantzig, cortando o acesso da Polónia ao mar do Norte, único local por onde este país tinha saída, ligando assim o território alemão à Prússia Oriental, a Inglaterra e a França, querendo, finalmente, por um travão ao expansionismo germânico vindo a assinalar-se desde meados dos anos trinta do século actual, expansão iniciada pela ocupação da Alsácia-Lorena, seguida da Áustria e Theco-Eslováquia, ameaçaram  com um ultimatum a Alemanha que caso esta não retirasse de Dantzig, até ao dia 3 (domingo), lhe declarariam guerra.

      Não respeitando o ultimatum a Alemanha não só não se retirou do corredor como se lançou, imediatamente, na conquista do país mártir que ao longos dos séculos foi sempre a Polónia.  É certo que para esta conquista muito contribuiu a Rússia, que em 24 de Agosto anterior, tinha estabelecido com a Alemanha Nazi, um Pacto de não agressão, pacto que deu origem a que a Polónia fosse também invadida pelos soviéticos nesses primeiros dias de Setembro.

      Como haviam afirmado as então Nações Aliadas - Inglaterra e França - nesse trágico domingo de Setembro, declararam a guerra, início da hecatombe que assolou o mundo durante seis anos, e que acabou por espalhar-se a quase todos os países terráqueos.

      Portugal, apesar de não se ter envolvido directamente nessa Grande Guerra, acabou também por sofrer as suas consequências. Foram não só as mobilizações de tropas, braços que muita falta fizeram, principalmente na agricultura - em 1943 chegaram a ser dispensados os recrutas, durante o período das colheitas - militares que em missão de soberania foram ocupar os Açores e a Madeira,  e ainda os antigos territórios ultramarinos, como a Guiné, Cabo Verde, Angola, Moçambique, India e Timor - onde chegaram a combater tendo ao seu lado os timorenses, os invasores nipónicos - como a falta de géneros alimentícios e combustíveis que tiveram de ser racionados, ração que mal chegava para as necessidades, como no caso do açúcar, arroz, azeite e outros produtos essenciais.

      Tudo essencial faltava. A gasolina, que a principio era distribuída, racionada de acordo com a matrícula dos carros - pares num dia e impares no outro - acabou, primeiro, por serem abastecidas as viaturas num único dia da semana e, finalmente, até este abastecimento acabou quase por completo, dando origem a que muitos dos carros, ficassem arrumados nas garagens à espera de melhores dias. Mas o problema dos carros também tinha a ver com os pneus. Fez-se sentir muito a falta de borracha, matéria prima, cujo principal abastecedor era o conjunto das ilhas do Pacífico, então ocupadas pelo Japão, que com a Alemanha e Itália, tinha formado o famoso Eixo  - Berlim, Roma, Tóquio -  alinhando assim com dos dois países europeus na guerra contra a já então entente formada pela Inglaterra, França e América do Norte.  Alguns carros,  entretanto, tinham substituído o seu combustível normal, pelo de gaz produzido pela queima de lenha -  os famosos GAZOGÉNIOS - recurso de que se serviram principalmente os transportes públicos. Ora, era vulgar ver viaturas utilizando velhos pneus, encapando outros, também velhos, num género de aproveitamento que mais tarde se utilizou, tomando o nome de manchões, quando passaram a remendar, podemos dizer, alguma mazela no pneumático. Mas não era só a parte exterior da roda, também o seu interior necessitava de borracha - a camara de ar. A falta também aqui se notava e o remédio, luminoso para muitos, foi substituí-la por PALHA.

      Foram tempos muito difíceis para os portugueses. A falta de géneros obrigava, por vezes, muitos a arriscarem a andar quilómetros e quilómetros em busca de um litro de azeite, de um quilo de açúcar ou arroz, este em muitos casos substituída por uma gramínea - a cevadinha - um naco de sabão outros géneros e produtos essenciais, para quase já perto de casa aparecer-lhes a fiscalização da Intendência Geral de Abastecimentos ou qualquer autoridade que não só apreendia os géneros, como ainda lhes instaurava um processo como açambarcadores só resolvido em Tribunal Militar. Certa vez, procederam ao julgamento de VINTE E SETE AÇAMBARCADORES, a maior parte dos quais tinha sido apanhado pela fiscalização com um mísero quilo de um dos géneros

      Nas pensões, restaurantes e hotéis as refeições apenas podiam ser servidas durante um escasso número de horas. Ao meio dia elas só podiam ir das doze às catorze e, na ementa, só era servido meio pão molete. Quem chegasse atrasado, por qualquer motivo, não podia ser servido e nenhuma desculpa era aceite.

       Com todos estes entraves - racionamento cada vez mais apertado, falta de tudo - as bichas eram enormes quando constava que se iria proceder à distribuição de qualquer produto racionado. Os serviços de segurança pública eram impotentes para estabelecer ordem, na razão da chegada, e muitas vezes foi necessário recorrer aos serviços militares para obstar as desordens. Dava-se muito isto no Porto, e a afirmação é com conhecimento de causa, de o pelotão de reforço de guarda ao antigo Regimento de Infantaria 6, ter de sair, alta madrugada, para impor ordem na bicha formada no Mercado do Bolhão, quando ali a CUF, procedia à distribuição de sabão ou azeite, por exemplo.

       Nos quarteis, onde a falta de géneros não se fazia sentir como acontecia com o restante da população, por vezes, havia necessidade ser abatida uma muar, dada como incapaz, e a sua carne lá ia parar ao rancho geral. Mas a falta de produtos essenciais era notória o que levou o Governo a tomar  certas medidas e dar vários conselhos à população no sentido de um melhor aproveitamento das nossas disponibilidade.

       Assim surgiu o conselho de que se deveria fazer em toda a parte em que isso fosse possível a criação de galinhas e coelhos. Foi então um entusiasmo excecional, surgindo em todo o lugar, coelheiras e galinheiros. Pouco depois, viu-se que a criação de coelhos não resultava, pois comiam mais do que o que deles se podia aproveitar.

       Também foram todos aconselhados a aproveitar todos os bocados de terra - jardins - e aí plantassem alguns dos produtos que estavam a faltar, como por exemplo milho ou batatas. Assim vemos que na acta camarária de 1941 - 1942, a fol. 24, de 15/ 01/ 1942, é proposto ser utilizado parte do terreno do Campo de Aviação para cultivo, tendo sido adjudicado o terreno para esse fim, conforme está exarado na acta a fol. 31 v, de 5/ 02.

       Por sua vez, fol. 24 v. - 22/ 01/ , o Governo Civil, afim de evitar doenças, oficia à Camara no sentido de providenciar para que sejam mantidos com a máxima higiene as coelheiras e galinheiros, instalados devido aos efeitos da guerra.A Camara, em 5/ 03/ , fol- 45, resolve abrandar as suas posturas, permitindo pela falta de carne em Braga, que esta poderia ser importada dos concelhos limítrofes.

       Como já acima dissemos a falta de gasolina era outro dos grandes problemas, e até para os bombeiros acudirem a sinistros. Na mesma acta, e a fol. 110 v. vemos que foi resolvido, por motivo do racionamento de combustível, fazer uma escala entre os Bombeiros Municipais e os Voluntários.

       Entretanto e para aproveitamento de terrenos para cultivo, sabe-se que - fol. 148, 6 de Dezembro, os terrenos sobrantes do Cemitério foram aproveitados para plantar diversos produtos (milho, centeio, fava, etc.) para servir de alimentação . . .às muares do serviço de limpeza!

       Outro grande problema se punha aos médicos. Com a falta de gasolina, não podiam, a maior parte das vezes, atender aos pedidos de serviços médicos de urgência. Para resolver este assunto, foi proposta à Camara - fol. 168, 8/ 10/, que "atendendo às dificuldades de transporte, seja permitido aos médicos da cidade, utilizar entre a meia noite e as sete horas, a ambulância dos Bombeiros Municipais para os serviços urgentes."

      Como se vê foram tempos muito difíceis para os portugueses, cujos efeitos se prolongaram ainda por mais alguns anos depois da cessação das hostilidades.

       E para terminar, e em jeito de piada, vamos aqui contar um episódio que decorreu passados tempos após o términus da guerra.  As pessoas que tinham instalado os seus galinheiros e coelheiros nas varandas das suas casas, continuaram, tal foi o hábito criado, com essas instalações.  Ora, ali para o Porto, um individuo tinha na sua varanda, um galinheiro, onde pontificava um belo galináceo. Todas as madrugadas, anunciando o nascer do Sol, o seu cantante grito, acordava um vizinho. Este rabugento, protestou perante o dono do galo, nada lhe valendo a sua reclamação o que o levou a apresentar queixa no Tribunal. Chegado ao dia do julgamento, o proprietário do galináceo foi mandado em paz, com a alegação da FALTA DO CORPO DE DELITO, que entretanto tinha sido sacrificado a uma boa arrozada de sangue.

 

      E por hoje nada mais.

     

Braga, Dezembro de 1995

                             LUIS COSTA



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Domingo, 20 de Dezembro de 2009
Bom Jesus 1
LUÍS COSTA B O M J E S U S BRAGA Situação Possível Origem da Devoção A Primitiva Ermida A reconstrução de Dom João da Guarda A nomeação do Primeiro Ermitão A Confraria e o Primeiro Santuário O restauro do Arcebispo Dom Rodrigo O Pórtico, as Capelas e o Escadório A Obra do Arcebispo Dom Gaspar O Elevador UBATI – Universidade Bracarense do Autodidacta da Terceira Idade 2009 O BOM JESUS DO MONTE BRAGA Um pouco da sua história, especialmente escrita para os alunos da UBATI Nestas tardes de verão, não escaldante como em anos passados, sentados numa das esplanada da Arcada da Lapa, folheando o livro do dr. Aberto Feio, “Bom Jesus do Monte”, podemos deliciarmo-nos e com prazer apreciar, em minúcia, a bela jóia que está encastoada na montanha a Leste da cidade de Braga. Não, podendo comparar, por falta de jeito e sabedoria, este meu modesto trabalho ao do acima citado autor que foi ilustre investigador das coisas de Braga, e Director da Biblioteca Pública Bracarense, vou principiar com o primeiro parágrafo com que inicia a sua descrição do Bom Jesus do Monte: “No abraço de montanhas, que cinge a cidade de Braga, pela banda de leste se levanta uma – multi-secularmente chamada Monte Espinho – em cuja encosta ocidental se ergue o Bom Jesus, Santuário de milagres e milagre da natureza, estância das mais belas de Portugal.” Não sei se lhe foi atribuído o galardão da “uma da maravilhas de Portugal” mas se não o foi, em minha opinião secundada por certo por todos os bracarenses e aqueles, nacionais ou estrangeiros, que tem a dita de conhecer um dos mais extraordinários conjuntos arquitectónicos, ex-libris da cidade, acham que lhe era devido. Mas deixemos, como diz o adágio, “não vale a pena chorar em leite derramado” na certeza de que a atribuição do galardão, é já hoje uma certeza no conceito de todos e principiaremos por aquele que é o propósito das crónicas que se vão seguir e que foram prometidas no período escolar anterior. Como quase todas as grandes devoções, a do Bom Jesus do Monte, deve ter principiado por uma singela cruz plantada, como diz Aberto Feio, por uma devota mão num plaino daquela montanha, no dealbar do cristianismo, não caso único em Braga, onde a colocação de uma singular cruz dá origem a uma grande devoção, como por exemplo, a do Sameiro. Possivelmente um popular asceta, cristianizado pelo Apóstolo Santiago, quando das suas pregações de divulgação da fé cristã, pela Península talvez tivesse sido influenciado pelo exemplo apontado de São João, que se isolou no deserto, escolhendo o alto daquele monte e, escavando uma gruta, ali se isolou do mundo, tendo por certo elevado no local a singela cruz, que mais tarde aquando do domínio visigótico a devoção da religião de Cristo, a ela convertidos graças à acção do bispo São Martinho de Dume, fez levantar uma ermida, destruída talvez pelo século oitavo pelos mudéjares, quando da sua invasão da Península. Tudo isto são conjecturas, pois nenhum testemunho há efectivamente que o comprove, só a lenda que abaixo cito é que nos dá uma resposta um tanto ou quando duvidosa. Após a reconquista, iniciada por Pelágio, da Península Ibérica, da terra ocupada pelos desde o século oitavo pelos sarracenos, e possivelmente após o restauro de Braga, levado a efeito pelo Bispo dom Pedro, deve de novo ter continuado a devoção no local da velha ermida ou Vera Cruz, onde, segundo Alberto Feio, “conta a lenda, que um singela cruz, arvorada por mão de desconhecido crente no alto do Monte Espinho, dera nascimento à devoção, que em longo giro de séculos, preparou e ergueu o grandioso Santuário do Bom Jesus do Monte”. No entanto Alberto Feio, acha que na primeira metade do século XVI devia “uma cruz soía de estar acima do chan do monte, na meia encosta ocidental, lugar que a piedade aproveitaria, centenas de anos atrás” para edificar uma ermida dedicada à Vera Cruz. Para confirmar esta sua opinião lembra que em 1549, era já considerada como muito antiga a ponte de Santa Cruz, sobre o rio Este, revelando, portanto, que por aquele caminho se chegava ao lugar de uma devoção, que deu o nome a esta ponte, que hoje quase nem a reconhecemos, mas está lá alargada, e podemos ver ao iniciar a caminhada para o Monte. Não há dúvida que pelo menos nos começos do século XIV, existia já naquele monte uma ermida dedicada à Santa Cruz, e isso está comprovado pelos estatutos da irmandade da Trindade de Braga, datados de 1373, “onde uma ordinachô determina que os confrades, por exaltamento da Santa Vera Cruz de Jesu Cristo, vão á ermida de Santa Cruz, por dia de São João (evangelista) do mês de Maio” levando tochas e doze círios, assistir a uma missa oficiada. E ainda para confirmar a sua antiguidade, quando da aprovação dos mesmos estatutos, em 1378, era referido que os confrades fariam aquelas obrigações “como as fizeram os seus padres e outros seus devidos e linhagens passava de trinta e cinco anos e chegava a quarenta bons e mais.” Esta referência atira-nos a devoção da primitiva ermida para uma idade muito antiga. No primeiro terço do século XV, estava a ermida de Santa Cruz anexada à igreja paroquial de Tenões, porque se situava dentro dos aros jurisdicionais daquela freguesia. Em 1430, o Arcebispo Dom Fernando da Guerra, anexou várias igrejas da região a Tenões, e como tal passou esta freguesia a ser um apetecido benefício eclesiástico, pois além dos benefícios das igrejas anexadas, tinha ainda o rendimento da Ermida de Santa Cruz. (Continua no seguimento do caderno e agora com o nº 2)


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Bom Jesus 2
Bom Jesus, continuação da primeira parte – cad.nº 2 (1 do 2º C.) O papa Sixto IV, concedeu por bula de l8 de Setembro de 1471, a João Vaz, Arcediago de Neiva , que, somente em sua vida, Tenões , com as restantes, igrejas anexadas por Dom Fernando da Guerra, incluindo a ermida de Santa Cruz, lhe fosse unida à conezia. A freguesia de Tenões - Santa Ovaia – era da apresentação e colação dos Arcebispos, conforme se pode comprovar pelos registos do século XV. Ora este facto não impediu que Martim Manuel fosse, pelo papa Alexandre VI, nela provido em 1502, ao tempo do arcebispo dom Diogo de Sousa, que o elevou à dignidade de Arcediago de Neiva, como sucessor de João Vaz, anexando-lhe à conezia, vitaliciamente a igreja de Tenões, com a ermida de Santa Cruz. Era então Deão da Sé de Braga, Dom João da Guarda, criatura e feitura, diz Alberto Feio, de Dom Jorge da Costa, que veio para Braga usufruindo avultadas rendas, tomou um chão junto a São João do Souto, para nele fazer a casa da sua residência e, colocou sobre a porta principal, o brasão do seu protector o arcebispo Dom Jorge da Costa, acrescentando-lhe a insígnia de Deão. Assim Tenões com a já conhecida por Ermida de Santa Cruz do Monte, passou a andar unida in perpetuum ao deado bracarense, então dignidade ocupada por Dom João da Guarda O novo vigário de Tenões, diz Alberto Feio, “levado pela piedade ou opulência”, mandou erguer, em 1522, um templo condigno, verdadeira igreja, em cantaria lavrada ao gosto da época, um gótico peninsular, como o provam alguns restos guardados no museu e o fragmento duma porta dessa primitiva igreja que há poucos anos estava no jardim da Casa do Passadiço. Por esse tempo, como sabemos, era Deão da Sé, Dom João da Guarda, que para ocupar esta dignidade em Braga, resignou do mesmo cargo na Sé da terra da sua naturalidade – Guarda – cargo que sabemos incluía a Ermida que havia séculos enfeitava a ilharga do Monte Espinho, e que era, por certo, de singela traça, minguando para o crescente culto divino à Vera Cruz. Assim como vigário da freguesia, resolveu como acima se diz construir um templo condigno. É disso testemunho, uma lápide com uma inscrição, achada em 1839, quando se construiu o escadório das Virtudes, e está encastoada na parede do último lanço do escadório. Assim como fizera na casa do Passadiço, mandou guarnecer o novo templo com o brasão do seu protector e senhor, Dom Jorge da Costa, acrescentando como já o fizera em Braga, o símbolo de Deão. Esta pedra de armas de fé está embutida no escadório no lado oposto ao da lápide com a inscrição atrás referida. Serviu este brasão para estabelecer uma grande confusão que levou a atribuir a fundação ao Arcebispo Dom Jorge da Costa. Um século passado sobre a morte do instituidor da primitiva igreja, Dom João da Guarda, principiou e quase se anulou a concorrência devota a ermida da Vera Cruz. (2 do 2º C) Desamparada, continuamos a seguir Alberto Feio, a igreja sofreu com o esquecimento dos povos, a aspereza do tempo e até com o desinteresse do vigário da freguesia. Certo dia, correndo o ano de 1629, numa visita de alguns bracarenses ao local da mui antiga devoção, que a piedade ali juntara, pensou em ressuscitar o antigo brilho do culto. Nasceu então o pensamento da fundação de uma confraria, com o encargo de reacender a devoção quase extinta. Cresceu, avolumou-se e difunde-se. Reunindo esforços e vontades, dentro em pouco está redigido e aprovado pela Cúria Arcebispal o Compromisso da confraria ou irmandade, sob a invocação de Bom Jesus do Monte. A velha designação de Santa Cruz do Monte, Vera Cruz, cedeu o seu nome perdura. Pobre de recursos, a nascente confraria procurou de todos os modos aumentar os seus réditos, aumento o número de confrades, fazendo peditórios pelas aldeias e cidade ao mesmo tempo que fazia a representação de autos e bailados sacros e de cenas bíblicas que atraíam muita gente às festas mais solenes. Entretanto um facto histórico contribuiu, e muito, para que a fama e devoção galgasse as fronteiras do Minho. Tratou-se da Independência de Portugal do jugo castelhano, no glorioso dia 1 de Dezembro de 1640. Todos atribuíram o sucesso à intervenção divina. Havia até quem afirmasse que durante dias um sinal luminoso apareceu sobre o Monte Espinho - um cálice da consagração rodeado de um esplendor que muita gente dizia tinha observado. O povo então ocorreu a agradecer ao Bom Jesus o favor com que tinha distinguido o pequeno reino lusitano. Restaurada a capela graças a estes esforços, dotada de paramentos e alfaias, entregam a um ermitão a sua guarda, que o cuidou com zelo fervoroso até à sua morte. Todo o pouco que possuía deixou-o à instituição, tornando-se assim o primeiro testador do Bom Jesus. De seu nome Pedro do Rosário, quis prevenir a tempo a sua sepultura. Tendo falecido a 11 de Dezembro de 1664, sendo enterrado na igreja perto do local em que a sua memória é recordada, através de uma lápide que tinha mandado fazer em 1647, e que está colocada, quase invisível, gasta pelo constante desgaste dos pés que a pisaram e pisam, e que está colocada ao cimo do escadório das Virtudes, e a qual diz : “A SEPOLTª Q MANDOU FAZER, Pº DO ROSÁRIO PRIMRº ERMITÃO 1647”. No entanto êste não foi o primeiro ermitão, como quer fazer crer a lápide, pois antes, no tempo de D. João da Guarda, ou logo a seguir, um outro de nome Pedro Anes, por ali andou. Não se poupou a esforços a nascente confraria para transformar aquele sítio quase ermo, numa das mais concorridas e pomposas devoções da província. Espalhou minúsculas ermidas, pelo caminho da montanha que mandou abrir, nelas representando Passos da maior tragédia cristã, com um figurado feito por artesãos populares, edificou albergues para os romeiros, paredões para segurança dos adros, enfim transformou por completo aquele sítio até então quase ermo. ( 3 do 2º c) Dadas as transformações e benefícios que os romeiros passaram a ter, a devoção foi aumentando e por conseguinte as esmolas iam ali caindo com generosa abundância. A prosperidade do Santuário e a fartura da confraria despertou a cobiça do Deão D. Francisco Pereira da Silva, pessoa de qualidade e de hierarquia veneranda – era da Casa dos Biscainhos - logo pensou em se apoderar dos rendimentos da novel confraria. Alegou o facto de ser alta dignidade da Catedral Bracarense e que todos os direitos lhe pertenciam como sucessor de Dom João da Guarda na abadia de Tenões. Dois anos durou a luta entre o Deão e a Confraria, luta desigual, fez com que os confrades desamparassem o templo, isto em 1710, deixando a sua administração por não suportarem um litígio em que não podiam vencer, embora a justiça estivesse do seu lado. Entregaram às garras do Deão tudo o que pertencia ao Santuário e deste modo perdeu-se todo o arquivo, todas as lembranças da primeira confraria, até os nomes dos instituidores ficaram na obscuridade. O novo senhor absoluto da rica benesse, cuidou apenas de a recolher para seu proveito, desprezando a devoção do templo que entrou em decadência e esquecimento. Foram onze anos, o suficiente para a quase ruína da secular devoção. Os romeiros principiaram por rarear e por conseguinte as esmolas foram desaparecendo e em consequência, danificaram-se as ermidas e a própria igreja. ( Continua no terceiro caderno e agora com o nº 3)


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Bom Jesus 3
Caderno 3 – (1 do c.3) À mágoa da cidade, continua Alberto Feio, e ao descontentamento geral, juntavam-se os insultos contra o capitular pela odiosa exploração. Em 1720, era arcebispo de Braga Dom Rodrigo de Moura Telles, os confrades anda existentes, vendo o estado lamentável a que tinha chegado o templo devido ao quase abandono com a administração do Deão, e não querendo que Braga perdesse a devoção ao Bom Jesus pela ruína do Santuário, recorreram ao Desembargador Juiz dos Resíduos para que ordenasse a constituição de uma Mesa Administrativa do Santuário. Obtido o deferimento procedeu-se judicialmente à eleição, que resultou como eleito Juiz, Francisco de Sousa e Castro, pessoa de grande respeitabilidade, Fidalgo da Casa Real, talvez a única pessoa que pudesse ombrear com o Deão, intimando-o a fazer a entrega de todos os haveres da confraria. Porém já nada existia, nem sequer havia notícia dos primitivos estatutos e então foi lançado pregão por Campa Tangida para reunião da junta de irmãos onde foi proposto e aprovado novo estatuto em 29 de Dezembro, estatutos que foram confirmados por provisão de 21 de Abril de 1721, pelo arcebispo Primaz, Dom Rodrigo de Moura Telles. Mas o pleito entre o poderoso Deão e a nova confraria, continuava sem resolução e com as consequentes demoras. É então que Dom Rodrigo de Moura Telles, entra na história do Bom Jesus do Monte. Passando por cima dos Estatutos, nomeia-se ele próprio, Juiz da Confraria. Rodeia-se de pessoas notáveis e perante tão forte personalidade, como era a do arcebispo, verga-se o Deão Dom Francisco. Hábil político como hábil era na usurpação de direitos, foi junto de Moura Teles e, submisso, subjuga-se, desistindo da sua jurisdição sobre o templo do Bom Jesus, por si e por todos os seus sucessores, mediante o irrisório foro por ano de duas galinhas e mais uns ovos, reservando para si o direito de escolher o ermitão de entre três nomes que a Confraria indicasse. É então que o Bom Jesus vai entrar na fase de prosperidade, é certo que agora e adiante, por vezes, essa prosperidade fosse obscurecida. O povo da cidade rejubilou, ele que nunca tinha visto com bons olhos a administração do Deão da Sé. Logo após a sua posse, como Juiz da Confraria, Dom Rodrigo de Moura Telles ( alma grande em corpo pequeno ), trata do restauro do futuro Santuário. Chama para dirigir as obras, fazer o risco da nova estância, o seu arquitecto, o Coronel de Engenharia Manuel da Silva Villa-Lobos, pessoas que já tinha dado mostra da sua competência, quando do trabalho da Cadeia da Relação, no Largo de São Francisco e talvez na igreja e convento da Penha de França, na Alameda de Sant’Ana. Delineou os escadórios iniciando-os pelo pórtico acessível por um lanço de escadas em semi-circulo, tendo em cada lado um tanque/fontanário encimado cada um por um arco no qual se destaca no fecho a representação do Sol e da Lua. Este lanço de escada dá acesso a um patamar vedado por um gradeamento em pedra, com elegantes pilares. Aqui se levanta o pórtico, com ombreiras lavradas em granito rústico, que sustentam um arco que se nos afigura abatido, mas que foi projectado de volta inteira e cedeu devido ao peso dos elementos que o decoram superiormente ( há quem afirme que cedeu aquando do terramoto de 1755 ), sobrepujado por uma cornija em que assenta uma cruz arcebispal, com a imagem do Senhor Crucificado. Ladeada por quatro esferas e mais duas nos extremos sobre os pilares. Ainda este arco tem a ornamentá-lo o Brasão de Fé do Arcebispo Moura Telles, o restaurador, como sabemos do Santuário. Na parte interior do pórtico, nota-se o complemento do brasão - um esfera armilar sobre a Cruz da Ordem da Cristo, símbolos da Ordem da qual era membro. No exterior, patamar, ao lado dos pilares, duas inscrições pétreas, lembram a acção de Moura Telles e que rezam numa: JERUSALEM SANTA RESSUSCITADA E REEDIFICADA NO ANO DE 1725 e na outra: PELO ILUSTRISSIMO SENHOR DOM RODRIGO DE MOURA TELLES ARCEBISPO PRIMAZ. Completam o Pórtico pequenos fontes adossadas aos pilares, que no pátio formado é guarnecido de parapeitos em cantaria, e rematados por duas pirâmides. AS CAPELAS VIA-SACRA Transposto o pórtico, deparamos, num pequeno átrio, com as primeiras capelas da Via-Sacra, que se encontra ao longo do escadório que representam o martírio de Jesus, desde a Última Ceia, até ao Golgota. Como o pórtico, estas duas capelas colocadas uma em cada lado são as únicas que restam da intervenção do arcebispo Moura Telles. A do lado direito, “numa imagem do século XVIII, popular e ingénua” diz Alberto Feio, dá-nos a representação do Cenáculo, a Última Ceia, onde preside Jesus, com um resplendor, distribui pelos Apóstolos o Pão, depois de o partir e o cálice, onde se encontra o vinho. Contem dentro de si catorze figuras. Jesus Cristo, sentado numa esplêndida e majestosa mesa debaixo de um precioso docel, instituindo a Eucaristia; os apóstolos, sentados em torno e São Marcos de pé, ministrando a Mesa. No frontespício desta capela. Numa cartela a legenda, que traduzida para vernáculo quer dizer : (2 do c.3) “Estando eles ceando. Tomou o pão … e disse…comei; este é o meu corpo.” Joan.13,2 / Math. 26.26 Em frente desta capela encontramos a cena que representa o episódio do Monte das Oliveiras. Jesus ora, tendo ao seu lado direito, três discípulos e à esquerda um anjo apresenta-lhe o cálice da Amargura. Sobre a porta de entrada outra inscrição explica a cena representada, “Posto em agonia orava com mais instância” Luc. 22.43. Tanto as imagens da Capela do Cenáculo como as do Horto, são da idêntica escola primitiva. Sobre as duas portadas, que são, como já se disse da primitiva reedificação, tem a encimá-las o brasão de fé do arcebispo reedificador. Tem o aspecto diferente das restantes ao longo do escadório. São no formato de um cubo, sobrepujado por uma cobertura em aresta e pirâmide quadrada, tendo cada uma no seu vértice uma esfera. Todo isto de pode confirmar consultando o mapa do século XVIII, inserido neste caderno e respeita o traço inicial de Villa-Lobos . Prosseguindo, por três lanços de escada, vamos encontrar a CAPELA DA PRISÃO DO SENHOR Aqui principia a alteração ao projecto inicial levada a efeito nos meados do século XIX. Para tornar mais cómoda a subida até ao templo, foi alongado o escadório, prolongando a escadaria, ficando menos acentuado o declive e projectando entre os lanços uns pequenos adros, que serviriam de descanso, aqueles que iriam percorrer a Via-Sacra. As capelas originais foram derrubadas e substituídas por outras em formato octogonal, tendo à sua volta, um muro no qual foi aposto encostado a ele, um corrido banco de pedra. O interior desta capela representa a traição de Judas, pelo figura do Redentor recebendo o beijo traiçoeiro. Segundo o Dr. Alberto Feio que vamos seguindo o seu trabalho, o primitivo figurado desapareceu, tendo as actuais figuras sido reformadas pelo escultor bracarense João Evangelista. Aqui pode esclarecer-se que segundo o escritor Ernesto Português, na sua monografia sobre São Salvador de Cambeses, sabe-se do desaparecimento desse figurado dizendo que os mais feios judeus da Via-Sacra do Bom Jesus, foram vendidos a libra cada um para a Via-Sacra do Couto de Cambeses, e diz mais “que olhando a que eram judeus, não tinha sido cara a compra, mas que segundo a sua opinião todos juntos não valiam um carro de canhotas.” A cartela que encima a portada, diz : “Lançaram as mãos a Jesus e o prenderam” Math. 26 .50 Ao lado da capela encontra-se a Fonte de Diana, com os seus respectivos emblemas: mão, flecha e arco. ( 3 do c.3) Prosseguindo no nosso caminhar, encontramos a quarta capela a das T R E V A S A imagem que ali está representada, é devida a Evangelista Vieira. Cristo de olhos vendados, sentado numa pedra, tem os pulsos presos. Como fundo desta cena uma série de edifícios em arcaria. Sobre a portada a inscrição: “ Então uns lhe cuspiram no rosto…. e outros lhe deram bofetadas” Math.26.67. Passando para o exterior, está representada a Fonte de Marte, com os seus atributos guerreiros. A fantasia do artista que a trabalhou, numa acção de criatividade e imaginação, colocou no centro destas armas um PISTOLÃO DE PEDERNEIRA. ///./// ( continua no caderno 4) (4 do cad. 3)


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Sábado, 19 de Dezembro de 2009
Bom Jesus 4
CONTINUAÇÃO DO CADERNO 3 cad. 4 (1 do c.4) Segue-se na ordem da subida a quinta capela dos açoites ou da F L A G E L A Ç Ã O Esta capela, cujo figurado não chegou a completar-se mostra-nos Cristo amarrado a uma coluna, disposto a receber a flagelação. É uma obra do mestre escultor Fonseca Lapa. Os críticos dizem ser uma obra medíocre deste artista. O aspecto que integra este quadro apresenta em pintura um edifício com janelas e um arco. A inscrição da cartela do pórtico, diz-nos: “Prendeu Pilatos a Jesus, e o fez açoutar” Joan.19/1 Fora, como em todos os quadros, e ao lado, está agora a Fonte de Mercúrio, em que as insígnias deste Deus mitológico estão representadas por uma mão pegando no caduceu, vara de louro de oliveira, com duas serpentes enroscadas na ponta, que era atributo de Mercúrio e insígnia dos antigos parlamentares e arautos. Continua a Via-Sacra, com a sexta capela da C O R O A Ç ÃO Nesta vê-se Cristo, açoitado por dois figurantes, sendo a imagem de Cristo uma obra do já mencionado autor bracarense Evangelista Vieira. Os dois restantes são obras de artistas populares da região. Nesta os flageladores colocaram-lhe a Coroa de Espinhos. A inscrição diz: “Saiu Jesus trazendo a coroa de espinhos” Joan. 19/5 A poente desta capela está a Fonte de Saturno, sustentando na mão uma fouce. No final deste quadro, ao cimo a escadaria leva-nos a um pátio e deparamos com o miradouro, de onde se desfruta uma admirável paisagem da cidade de Braga, Ao lado direito deste pátio, fica a sétima capela, a do P R E T Ó R I O Mostra-nos quando Pilatos apresenta Jesus à multidão, exclamando: ECCE HOMO. Constituído apenas por duas figuras, Pilatos e Jesus assentes num balcão elevado, tendo como pano de fundo, em pintura, um escadório e umas construções com o inevitável arco. As imagens de Pilatos e Jesus, são também de autoria de Evangelista Vieira. Sobre a porta a costumada informação do quadro: “Saiu … Pilatos fora e disse …eis o homem” Joan. 19,4,5 Possivelmente quando do restauro do Pátio, que está na parte voltada para a cidade, está uma grade em ferro, com assentos, para os romeiros poderem descansar e apreciarem o magnífico panorama da cidade. De fronte está a oitava capela a CAMINHO DO CALVÁRIO Sobre o pórtico, a legenda esclarece-nos: “Levando a cruz as costas, saiu para…o lugar do Calvário”Joan 19,5 O interior, de grande figurado, apresenta Jesus dobrado pelos joelhos, levando aos ombros a Cruz, arrastado por um soldado romano e seguido do Cirineu e de várias mulheres. Segundo o manuscrito “Historia Eclesiástica do país Bracarense do século XVIII”, códice nº 862, da Biblioteca de Lisboa, a fol. 47 (70), cuja fotocópia existe no Arquivo da câmara de Braga, Jesus “puchado por um pregoeiro, vai (ia) publicando a seguinte inscrição: (2 do c.4) “A Justiça que mandou fazer Pôncio Pilatos a Jesus Nazareno, por malfeitor e amotinador do povo”; duas Marias uma com a Santa Verónica, e outra com um menino ao colo e alguns soldados. Diz também o códice “Esta imagem ( Verónica ) foi feita em 1778 e conduzida em procissão da Igreja da Misericórdia até São Victor no dia 20 de Outubro do mesmo ano e no seguinte a colocaram na sua Capela”. Uma curiosidade, que muitos atribuem a talvez a uma imaginação do arquitecto que lhe deu origem e outros afirmam que é apenas uma coincidência é a de que colocados no centro do pátio e encostados à grade que o delimita do precipício e olhando para o escadório até ao cimo, aliando-nos dos lados e concentrando-nos no centro, a figura que se nos depara com a sucessão das fontes, é a do Cálice da Consagração nas missas. Coincidência ou propósito é de facto uma curiosidade. Encontram-se no pátio aos lados, duas capelas que já não foram construídas, no tempo de Moura Telles, e como tal já não ostentam na fachada o brasão de fé do arcebispo restaurador, como apresentam as oito Capelas anteriores. Assim a nona, colocado ao lado direito, desenrola o motivo da Q U E D A ou do CIRINEU Jesus sob o peso do madeiro cai e está estendido no chão e Cirineu ampara-lhe a cruz. São duas esculturas de Vieira. Sobre a porta a costumada explicação da cena: “E vieram a um lugar chamado Gólgota”.Math.27, 33 Do lado oposto, isto é à esquerda de quem sobe fica a capela da C R U C I F I C A Ç Ã O Mantém esta Capela, diz Alberto Feio, “ainda as primitivas imagens populares e simpáticas do século XVIII, com o sabor de ingénua sinceridade que as inspirou”. Representa o Monte Calvário, semeado de caveiras, vendo-se Jesus, estendido sobre a cruz, e um soldado algoz de martelo segurando a mão, onde vai cravar um prego. Aos pés outro soldado prepara-se para receber um prego para fixar os pés de Jesus. As três Marias assistem impotentes à crucificação, chorando e lamentando: três soldados romanos (o manuscrito diz três judeus) preparam-se para o crucificarem. A um canto está o rapaz com a cestas dos pregos, (curiosidade que tem acompanhado ao longo dos tempos, uma frase utilizada por muitos populares quando se querem referir a um rapaz de mau génio, exclamando: “És mau como rapaz dos pregos do Bom Jesus”). Um outro com o título para a Cruz, as letras J.N.R.J. Esta Capela é do tempo antigo e não tem as armas do Arcebispo e foi reformada no ano de …. A inscrição da fachada diz: “Era pois a hora de terça quando o crucificaram.” Marc.15,25 Chegados a este ponto podemos apreciar do terreiro, onde se encontram estas duas capelas, o panorama da cidade de Braga, a sua grande extensão que surgiu depois dos finais dos anos cinquenta e que se tem prolongado até à actualidade. É daqui, do meio do varandim que o limita que se pode ver uma curiosidade do Bom Jesus. Olhando para o templo, e abstendo-nos dos lados dos escadórios que se vêem, no centro e até ao cimo, ao templo, o conjunto de fontes dar-nos o aspecto do cálice da Consagração. Obra do acaso ou propositada ?. Aqui por um escadório em três lanços em que se nota, ao lado dos primeiros degraus, em cada lado uma serpente enroscada numa coluna, encimada por um coruchéu, onde da boca da serpente, sai um fio de água, que vai percorrendo as voltas do enroscamento, até chegar á base, constituída por uma bacia, escada sobre o túnel da estrada que nos leva até ao cimo da colina sagrada, se dá início ao O ESCADÓRIO DOS CINCO SENTIDOS Ao lado esquerdo se sobe por sete degraus para um largo…está uma majestosa escada que em trocadas voltas e graciosa arquitectura oculta os seus degraus e pátios. Ela se adorna com quinze estátuas e seis fontes com os sentidos exteriores gravados em figuras de meio relevo que lançam água pelos sentidos que exprimem como é na vista a águia, no ouvido o touro, porém no tacto a aranha, o bogio (macaco) no gosto, o cão no cheiro. (3 do c. 4) Na base das taças que recebem a água destas fontes estão os cinco sentidos simbolizados pela aranha, pela águia, pelo símio e o cão e o touro, “imitando o que dizia Santo Isidoro, ao qual se refere o dístico : “NO OUVIR O JAVALI EXCEDE O HOMEM, VÊ MAIS O LINCE, A ARANHA TEM MAIS TACTO, E NOS MONOSO GOSTO É MAIS SUBIDO, E O ABUTRE VORAZ VENCE-O NO OLFACTO” Também cada estátua é uma alusão à fonte a que pertence: tudo gravado em dísticos latinos, com alegorias poéticas que, depois por coisas que houveram se mudaram as epígrafes no ano de 17… (depois da questão levantada pelo Marquês de Pombal) se gravaram outras letras ao Divino e se mudaram as letras da gentilidade em figuras da Escritura e de tudo ( diz o manuscrito que, por vezes temos seguido): aqui dou uma noção para que os curiosos saibam e não fiquem sepultados na urna do esquecimento para os séculos futuros. Esta é a primeira parte do Santuário, continuando com Alberto Feio,“legado à posteridade pela magnificência de D. Rodrigo de Moura Telles e pelo fervor dos bracarenses reformado e sustentado. Aqui principia o escadório dos Cinco Sentidos, dividido em vários corpos, formados por duplos lanços, limitados por pequenos pátios, adornados com fontes alegóricas e heráldicas, ornamentados no estilo rocócó ( uma adaptação do estilo francês rocaille ao gosto nacional). Esta obra é ainda de Dom Rodrigo, não pode o ilustre restaurador vê-la concluída, visto ter sido surpreendido pela morte em 4 de Setembro de 1728. Quem terminou esta parte foi os seus sucessores na confraria com recursos de certa maneira singular. A Companhia de Jesus, estabelecida no Colégio de São Paulo, pretendendo monopolizar o ensino no seu colégio, intentou um litígio contra todas as instituições que ministravam o ensino, particularmente com os Padres da Congregação do Oratório ( Congregados ), dado que até então tinham o monopólio do ensino em Braga. Azedou-se a questão quando numerosos estudantes se manifestaram em ruidosas arruaças contra os Jesuítas. Estes em réplica conseguiram fazer prender alguns e mandá-los em levas para Lisboa, apelidando-os de malfeitores que, com a sua acção, perturbavam o sossego da cidade. Em Lisboa foram soltos e recambiados para Braga, mediante o pagamento de avultadas multas. Mas os padres da Companhia, na tentativa de amenizar o problema, pois a animosidade da população contra o que classificavam de violência inaudita o facto de os estudantes não poderem escolher quem lhes ministrasse a instrução, de não quiseram os Padres de S. Paulo, receber o dinheiro. E assim resolveram entregá-lo à Confraria do Bom Jesus, para a feitura da estuaria em pedra que ornam o escadório, pois sabendo de ante mão que os bracarenses tinham com o Bom Jesus um carinho especial, certamente se conformariam com esta dádivas. Há quem diga que a libertação dos estudantes em Lisboa, se ficou a dever à intercepção da Nossa Senhora da frontaria da Câmara, na Sé, que a partir daí passou a chamar-se Nossa Senhora do Livramento. Esta imagem que primitivamente esteve na fachada da antiga Câmara, em frente à Sé, e depois na Capela dos Reis, está hoje numa edícula da fachada do edifício da Câmara, no Largo do Município. …/… (4 do cad. 4) Continua no caderno nº 5


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Bom Jesus 5
Caderno 5 –Bom Jesus (1 do c.5) Dom Gaspar de Bragança, no princípio de 1773, a pedido da Mesa do Bom Jesus, pediu a sua protecção, para junto do Papa Clemente XIV, conseguir fossem concedidas graças espirituais, com que a igreja costuma beneficiar os romeiros que visitavam os lugares que a piedade cristã tinham consagrado. A intervenção de Dom Gaspar foi tão bem aceite na Cúria Romana, que no dia 20 desse mesmo ano, o Papa expedia três Breves, concedendo aos peregrinos e romeiros do Bom Jesus um Jubileu, com graças e privilégios, comparáveis aos de S. Tiago de Compostela e aos dos lugares Santos de Jerusalém. O ESCADÓRIO DOS CINCO SENTIDOS Como no anterior caderno dissemos, as estátuas do Escadório dos Cinco Sentidos foram devidas ao gesto dos Padres Jesuítas. Eles mesmo é que escolheram o figurado, símbolos e dísticos. Foram buscar à Bíblia e à Mitologia os exemplos, numa promiscuidade que a Mesa Censória, em Edital de 22 de Abril de 1774, julgou indecorosíssima e indecentíssima. Disto resultou, serem caçados os Breves com as grandes indulgências concedidas pelo Papa Clemente XIV, visto terem considerado que essas indulgências como obtidas ob-repetício e como tal proibida sob pesadas sanções. Estes breves tinham sido concedidos graças à acção do arcebispo Dom Gaspar de Bragança e com o auxílio dos banqueiros de letras romanas António da Silva Teixeira e Boaventura Miguel Aranha, o primeiro residia em Roma e o segundo em Braga. Contribuiu esta medida para que de novo a devoção e afluência de romeiros quase desaparecesse e, com a consequente dádiva de esmolas. Para dar satisfação à Mesa Censória, foram mudados os nomes das imagens e os dísticos que tinham sido aproveitados da Mitologia. Assim Argos passou a chamar-se Vir Prudens; Orfeu – Iditihum: Jacinto – Vir Sapiens: Ganimedes – Joseph, e Midas – Salomão. Os letreiros foram também substituídos. Dom Gaspar não desanimou e esperou altura oportuna para de novo pedir as indulgências que atrairiam de novo ao Bom Jesus os romeiros. Morto Dom José sucedeu-lhe Dona Maria 1ª, que afastou o Marquês, um dos maiores opositores ao sucesso do Bom Jesus. Também tinha morrido o Papa Clemente XIV, sucedendo-lhe no Pálio Pontifício Pio VI. Este Papa concedeu novos breves com tantas ou mais indulgências que os caçados. Festas ruidosas se fizeram por toda a cidade, e anunciou-se a boa nova por todo o País. De todo o lado ocorreram de novo os romeiros e o Santuário entra em nova fase de esplendor. Subindo este escadório que nos leva a um pátio tem no seu inicio duas serpentes enroscadas, uma a cada lado, que jorram das bocas água que é recolhida nas taças. Este pátio tem a ornamentá-lo, ao centro a primeira fonte entestando uma taça em granito denominada como a das: CINCO CHAGAS (2 do c. 5 ) Esta fonte é posterior ao primitivo projecto, tendo esta sido substituída por uma que é talvez, homenagem aos restaurador do templo, Dom Rodrigo de Moura Telles, pois apresenta o seu escudo heráldico, o seu brasão de Fé, ornamentado. Segundo o manuscrito a que já fizemos referência “ Existia antigamente uma fonte de sete castelos (as armas de fé de Dom Rodrigo) chapéu e cordões feita por Dom Rodrigo, com as suas armas deitando água por sete bicas com as letras seguintes: Rodrigo, arcebispo Primaz Espanha, em ano de 1723”). De uma cruz de pedra, embutida ou colocada sobre o brasão, de cinco aberturas, simbolizando as cinco chagas do Senhor, uma torrente de água é recolhida numa concha. Na parte superior do escudo ornamentado, vêem-se os instrumentos utilizados na Paixão. A inscrição que se pode ler diz: “O infame ódio abriu estas purpúreas fontes; aqui agora as converte em cristais”. Ao lado nasce o primeiro lanço do escadório, em cujo pátio esta a fonte da V I S T A Nesta fonte está representado, em meia figura deitando pelos olhos duas correntes de água, é o sentido da vista, tendo por cima o Sol, e por baixo, no pé da taça uma águia alusiva a êste sentido. Primitivamente por cima da fonte tinha a figura do Pastor Argus, com os seus cem olhos, com estes versos dentro da tarja em que o plinto assentava tinha estes dizeres: “Está sobre a iminência deste monte o mais vigilante Argus; serás feliz se ele te tiver diante dos seus olhos”. Diz a fábula que o Pastor Argus, tinha cem olhos, cinquenta dos quais descansavam enquanto os outros velavam. Pelas razões apontadas anteriormente, foi esta uma das estátuas que foi substituída, dando lugar às figura de um varão prudente, dormindo tendo na mão um cajado. Na tarja do pedestal, os dizeres: “Varão prudente. Toma-as por um sonho, e vigiarás”.Eccles.C. 13 Do um lado do que sustenta o escadório esta a estátua de Moisés, com uma serpente de metal enlaçada numa vara e na tarja os dizeres: “Moisés. Os que, estando feridos, olhavam para ela, saravam”Num 21,19. Do outro lado está estátua de Jeremias com uma vara cheia de olhos, e a tarja diz: “Eu vejo uma vara vigilante”Jer. 1 Ao centro está a FONTE DO OUVIR Num nicho vê-se em pedra lavrada em relevo uma figura, lançando água pelos ouvidos. Na base da taça que recolhe a água, uma cabeça de touro alusiva à sensação auditiva. No cimo está a estátua de um mancebo, tocando uma cítara e a tarja revela os dizeres: “Que cantavam ao som da citara, presidindo aos que cantavam e louvavam ao Senhor”I paral.25,3 (3 do c.5) Como algumas das anteriores também esta estátua, sofreu modificação, mas apenas nos dizeres que eram: “Este Orfeu, que nos ouvidos nos enleva, QUE MEIGO ASSIM AS DORES SERENA Tem por lira uma cruz, tem fundas chagas, EM VEZ DO CANTO, E A DOR DA PENA” A um dos lados e no patim, está sobre o paredão a estátua de David, tocando uma harpa. O letreiro diz: “Ao meu ouvido darás gozo e alegria”Psalm.50 Do outro lado, Sul, vê-se uma estátua feminina que representa a Esposa dos Cantares, tocando uma citara e na tarja a letra: “Soe a tua voz dentro dos meus ouvidos”Cant. 2 Segue-se a: A FONTE DO OLFACTO Nela se nota, numa meia figura de pedra, com uma caixa na mão e as lamparina na outra, deitando água pelos buracos do nariz. De cada lado desta figura está um cão e por remate uma estátua profana com uma odorífera flor cuja figura simboliza a Jesus Cristo. Como se tratava de uma estátua profana caiu na alçada do decreto e em consequência teve de mudar pelo menos a inscrição lapidar que passou a ostentar a frase: “Varão sábio. Dai viçosas flores como o lírio e rescendei suave cheiro”.Eccl.39,19 Apenas foi substituída a legenda que dizia: “Rubicudo Jacinto ainda mostra O Sangue seu, lá no horto derramado; Inda, pendendo e murcho, aqui se ostenta Das preciosas gotas orvalhado” Corresponde a Norte desta fonte a estátua de Noé, com as vestes sacerdotais com um turbante na cabeça e sustentando numa mão um cordeiro junto a um altar aceso. Na inscrição lê-se: “ O que foi agradável ao Senhor., como um suave cheiro”. Genes 8 Do outro lado sobre um plinto a estátua de Sunnamites, amarrada a uma palmeira, sobre a legenda: “A tua estatura é semelhante a uma palmeira e o cheiro da tua boca como o dos pomos”Cant. Cantic. Cap.7, Abisag era o seu nome. Chamou-se Sunnamites de sua pátria Sunam, cidade de tribu de Issacar. No quarto patamar vamos encontra outra fonte. Trata-se da (4 do c.5) FONTE DO PALADAR Esta fonte que alegoriza o quarto sentido com uma meia figura com um pomo na mão e deitando pelo boca golfadas de água numa taça e aos seus lados estão dois bógios ou macacos com uma maçã na mão em alusão ao sentido desta fonte por nestes animais ser muito maravilhosa a vivência do paladar. No pé vê-se também um macaco. Por cima da fonte “está colocada a estátua de Ganimedes, que depois, dadas as circunstâncias do decreto dos breves pontifícios passou a ser de José. Ganimedes simbolizava a um jóvem formoso que fora, diz a fábula, arrebatando do Monte Ida por Júpiter para servir nos Céus à mesa dos Deuses, e tinha por inscrição: “Cuidoso Ganimedes nos derrama /Néctar celestial, e doce ambrosia; Em taças nos oferece o próprio sangue / Dá-nos a carne sua iguaria” Substituída então, como se diz acima, por José do Egipto tem numa das mãos“uma bandeja de frutos e um cálice – símbolo do seu ministério na corte do Faraó - ” tendo a inscrição na cartela: “A tua terra seja cheia das bênçãos do Senhor. E dos frutos do Céu, e do orvalho” Deuter.33, 15 Corresponde-lhe a Norte a estátua de Jonatas, um mancebo, que segura com a mão direita uma lança, na ponta um favo de mel, e junto de si uma colmeia. Os dizeres da tarja referem: “Tomei um pouco de mel na ponta de uma vara, comi dele, por isso morro!...”I Reg. C. 14 Do lado Sul, desta alegoria, está a estátua, estava a estátua de Edras, com um cálice na mão e em cima dele uma caveira. A caveira foi substituída por um pão e sobre ele a mão direita. A inscrição reza: “Toma o pão, e não o abandones, como o pastor no meio dos lobos”Esdr. 4 C.5 …/… continua no caderno nº 6


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Bom Jesus 6

Caderno nº 6 – Bom Jesus (1 do c.6) Finalmente, no último patamar do Escadório dos Cinco Sentidos com a Fonte do: SENTIDO DO TACTO Esta é a última fonte dos sentidos corporais e ela se enobrece com a estilização completa do brasão de fé do arcebispo Moura Telles, que a mandou edificar, ou seja a cruz, coroada, da Ordem Cristo, mitra, chapéu com borlas pendentes e os sete castelos em fita elipsoidal. Quando desenho para esta fonte, a principio, estava para ter outra figuração. “Numa tarja se vê, diz o códice, uma meia figura apalpando com as mãos um animalejo (ouriço cacheiro) que está lançando copiosas fontes de água pelos seus espinhos e, pelos lados, tem algumas aranhas, que tem a propriedade do tacto, que são alusivas a êste sentido e por alusão ao mesmo ao mesmo sentido e por remate da fonte El-rei Midas com a clâmide real (manto rico usado pelos antigos e preso no ombro por um broche), ceptro na mão, coroa na cabeça e o seguinte dístico = que simboliza Jesus Cristo =: Dos Midas o mais rico, assim pudesse Os nossos corações tocar piedoso! De férreos, como são, ei-los dourados Do seu amor ao toque portentoso. Que lavado mais a rigor, quer dizer : “Eis aqui o mais rico Midas; preza a Deus que toque o coração de todos, que pronto, que sejam de ferro, o seu os tornará em ouro”. Segundo Forjaz Sampaio, em Memórias do Bom Jesus do Monte, teve depois esta estátua gentílica o nome de Assuero com a inscrição: Estendeu a mão com o ceptro de ouro para lhe dar mostras de clemência. No entanto hoje, o animalejo, talvez pela dificuldade de não ser possível deitar água pelos espinhos, foi ele substituído por uma figura que segura nos seus braços uma bilha escorrendo água. No cimo da fonte foi a estátua de Assuero, transformada em Salomão, com púrpura e coroa tendo na dextra o ceptro e os dizeres na tarja: Salomão. As minhas entranhas estremeceram ao seu toque Ladeando esta fonte, vê-se a um lado a estátua de Isaías com uma tenaz pegando numa brasa e na tarja a letra: Tocou a minha boca! Do outro lado, está a estátua de Isac, cego, e na tarja a inscrição: Chega-te a mim meu filho, para eu te tocar. Neste terreiro termina o Escadório do Cinco Sentidos. Todas as estátuas indicadas, diz o códice que faz uma descrição pormenorizada de todo o conjunto devido a Moura Telles, “são de pedra fina e de estatura ordinária., e as ruas do Santuário, calçadas e altivas (?) para vencer a altura do monte. Os lados desta majestosa escada estão guarnecidos com canteiros ou socalcos coroados de murta com árvores do Gerez, que aformoseiam os lados desta sumptuosa escada”. De notar que em todas as fontes, tem, à roda cartela onde estão figurados os sentidos corpóreos, inseridas as armas de fé do arcebispo – Sete Castelos. Continuando a seguir o Códice, fala-nos numa escada que partia do cimo do Escadório para um terreiro em que da parte direita existia um jardim, com um lindo génio que lançava num tanque água cristalina, casas da mesa, do capelão, quartéis para os romeiros, e casa para o ermitão e um meio claustro com uma varanda com quartéis e um grande chafariz no meio. No lado esquerdo estava a figura de Moisés, ferindo com uma vara o penedo de que saia água de uma fonte, alusão ao facto, de Moisés, no deserto, ter feito rebentar a água de um penedo. Afirma ainda que no meio do terreiro, depois do Escadório, estava uma pequena ermida com um jardim onde se via Santa Maria Madalena, em êxtase. Refere também que o acesso ao templo mandado edificar por Dom Rodrigo, se fazia por uma escada com corrimões de ferro e que o templo era feito à romana, quase redondo, com retiro para a Capela-Mor, com três portas e a principal com duas colunas. Tinha, no cimo da principal, uma inscrição que dizia ter sido mandada fazer pelo Arcebispo Moura Telles que a tinha consagrado ao Senhor Crucificado e a sua alma à posteridade, no ano de 1725. Desenvolve o interior do templo e diz que a imagem do Senhor Crucificado, a deu o Sereníssimo Senhor Arcebispo de Braga, Dom Gaspar. Informa também que no Altar-mor se adorava a Deus Sacramentado, a partir de 6 de Outubro de 1765. Fala do altar das Relíquias e de S. Clemente Mártir. Lamenta que o templo, em 1790, se encontrasse em ruína, mas que já se tinha principiado a fazer um novo. Na Biblioteca Pública de Braga, há um desenho em que mostra a igreja com as suas paredes exteriores escoradas. Refere ainda o manuscrito que um pouco desviada, se encontrava “junto da fonte do Penedo uma torre com os seus sinos e relógio e diz que aqui se acabaram as obras que fez o Exmº Senhor Dom Rodrigo de imortal memória neste Santuário”. Sobre este penedo está hoje, a estátua equestre do Longuinhos, estátua oferecida em 1819, pelo Dr. Luís de Castro do Couto, do Pico de Regalados, e foi executada pelo escultor Pedro José Luís, que a concluiu em 1821. Os sinos da torre, depois de destruída, foram colocados na torre sul do novo templo. Em 1837, para dar uma maior sumptuosidade aquela parte de acesso a um jardim que encimava a obra do Arcebispo, a Mesa Administrativa da Confraria resolveu alongar mais o escadório do primitivo Santuário e criando para isso um novo lanço da escadas, ao qual pôs o nome de Escadório das Virtudes, o qual é composto por três lanços, com o mesmo traço do dos Sentidos, mas que em cada um deles se representaria uma das virtudes teologais – FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE. No entanto esta novo escadório já não seguiu o estilo barroco que se representou no anterior. As fontes, cavadas nas paredes, são do estilo Luís XVI, apresentado no seu cimo as estátuas alegóricas. Entre estes dois escadórios, existe um amplo terreiro, foi onde existiu a ermida de Santa Cruz e a igreja que foi demolida, como dissemos, pelo seu estado não oferecer segurança, caso que mais adiante falaremos a propósito da construção do novo templo. É guarnecido de assentos de cantaria, que tem como resguardos paredões enfeitados com floreiras em pedra. No topo deste terreiro, por uma escada semicircular, vamos deparar a primeira fonte e na qual é representada a virtude da F É (2 do c.6) Uma cruz simples, de um só traço, arvorada em Calvário, jorra água por três goteiras, assinalando o local dos cravos. Por cima uma cartela diz: Correrão dele águas vivas. Como remate no cimo, está uma estátua, figurando uma mulher com os olhos vendados, segurando numa das mãos um cálice com uma hóstia e na outra, o dedo aponta o ouvido. Também esta tem a sua inscrição, na peanha lê-se: Fé … argumento das coisas que não se vêem… A Fé é pelo ouvido; e o ouvido pela palavra de Cristo. A esquerda, é representada a Docilidade. De novo uma mulher, com o braço esquerdo levantado, aperta na mão uma serpente, e no braço direito, um escudo no qual está relevada uma cabeça de elefante, tendo como remate uma ampulheta, coroada com uma serpente no meio de dois espelhos. A inscrição deste conjunto diz: Com o coração se crê para alcançar a justiça. No lado contrário, uma outra alegoria está representada a Confissão. Uma figura feminina sustenta na mão as Tábuas da Lei, com o indicador dirigido ao primeiro mandamento. Na inscrição estão gravados os seguintes dizeres: Mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação. Seguindo para o segundo patamar vamos encontrar a representação da E S P E R A N Ç A simbolizada na fonte pela Arca de Noé, no cimo de uma montanha, da qual brotam alguns veios de água que se dirigem para a taça. No nicho está a legenda: Arca na qual … se salvaram almas. Encima esta fonte outra figura feminina – a estátua da Esperança, sustentando na mão esquerda um âncora e na direita uma pomba. Na base tem a inscrição: Aguardando esperança bem aventurada e a vinda da glória. Do lado norte a estátua da Confiança, tendo na mão um navio de largos panos. Na peanha a inscrição diz: Na esperança está a vossa fortaleza. A sul está a representação da Glória, segurando na mão dextra o Sol e na outra uma palma. À esquerda desta alegoria está sobre uma base, um globo terrestre e em baixo as letras: O olho não viu nem o ouvido ouviu: (3 do c.6) …/… continua no caderno nº 7



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Bom Jesus 7
Caderno nº 7 Bom Jesus (1 do c.7) Finalmente estamos a chegar ao cimo dos monumentais escadórios. A terceira e última fonte alegórica, simboliza a: C A R I D A D E Esta virtude é representada por duas crianças de pé, tendo nas mãos um coração de onde sai um fio de água. Em plano superior, uma mulher de alegre semblante, sustenta duas crianças nos braços. Uma inscrição diz: São três estas virtudes… a maior, porém, é a da caridade. Do lado esquerdo do patamar, esta figura da Benignidade. Uma avantajada mulher, coroada com um diadema representado o Sol, está encostada a um elefante e segura um ramo de oliveira na mão direita. É o Símbolo da Paz, e a inscrição reza Paz seja aos irmãos e caridade com fé. Termina este escadório das Três Virtudes num patamar onde existem duas pequenas capelas, em de cada lado, com ornamentação Luís XVI. Uma tem S. Pedro por padroeiro, e mostra-nos o chaveiro do Céu, chorando o pecado de ter negado Cristo. No cimo da porta, a legenda refere: E Pedro, saindo para fora, chorou amargamente. Em frente, a outra, representa a gruta onde Maria Madalena se penitenciou escondida do mundo. A imagem da Santa está de pé a olhar para os anjos. Esta imagem ou este conjunto deve ter pertencido à pequena ermida a que fizemos referência no caderno nº 6. No pórtico, no arco, está a inscrição: Maria escolheu a melhor parte que lhe não será tirada. É no paredão adjacente a estas capelas está a lápide e o brasão de Dom Jorge da Costa, com o símbolo do Deão Dom João da Guarda, que mandou nos finais do século XV, fazer a igreja que foi depois demolida como já nos referimos. Este escadório das Virtudes, muito embora tenha sido deliberado pela Confraria ser construído anos antes só o foi mais tardiamente e deve-se ao risco do arquitecto Carlos Amarante, de quem falaremos ao mencionar o novo e actual templo, fazendo parte do projecto da conclusão do Santuário. O TERREIRO DE MOISÉS Antigamente este local era denominado por o Miradouro e dava e dá acesso ao Terreiro de Moisés. O nome de Moisés foi atribuído por a figura que representa o libertador e legislador de Israel, livrando o seu povo da escravidão no Egipto, quando do êxodo fez brotar, em pleno deserto, batendo numa fraga água para acalmar a sede dos fugitivos. Hoje esta estátua, retirada do primitivo local sobre a fonte da Cascata, foi ocupar o cimo de um penedo, na Mãe de Água, numa alusão ao milagre, com o gesto de com uma vara batendo no penedo faz brotar a água que alimenta o lago, de que falaremos mais adiante. Esta parte do imponente monumento, diz o Dr. Manuel Monteiro, no seu roteiro de Braga, editado pelos finais dos anos vinte do século XX “é um dos mais impressionantes lugares do Bom Jesus. Em curva elíptica, é talvez o mais belo trecho da arquitectura de jardins existentes em Portugal”. A beleza do traçado, as admiráveis proporções, são também devidas a Amarante. Era ali que terminava a obra de Dom Rodrigo, e pela deslumbrante paisagem que se avista sobre a cidade era porque se chamava ao local, o Miradouro. Na parede fronteira deste lindíssimo recinto está uma graciosa fonte, denominada a cascata, onde de vê a figura de um pelicano, rasgando o seu peito, para com a sua carne alimentar os filhos à sua volta. Da ferida escorre uma abundante água que cai em abundância em três taças, e por fim é recolhida ao nível do chão numa bacia. É também conhecida esta fonte por a Fonte do Pelicano e, como de certa maneira esta relacionada com a família, serve de pano de fundo a muitos noivos do Bom Jesus, para se fotografarem par recordar mais tarde. Daqui partem as duas escadas helicoidais, que completam este gracioso conjunto e dão acesso ao adro da igreja. Em cada lado deste terreiro, escadas levam-nos às duas últimas capelas deste conjunto desta monumental. A da direita, ou seja do lado Sul, figura-se a Capela da E L E V A Ç Ã O É a capela mais recente. Numa gravura, datada possivelmente de meados do século XIX, apresenta a capela, com o nº 17, dizendo “Capela que se tem de fazer”. Apresenta o quadro de Cristo pregado na cruz no momento e, que é erguido no Calvário. Sobre a porta a inscrição diz: E quando eu for levantado da terra todas as coisas atraírem a mim A outra capela, situada no lado Norte, está outro passo, o do D E S C I M E N T O Retrata o descimento de Cristo da Cruz, onde estava pregado. As figuras deste quadro, inspirado num quadro de um célebre pintor, foram executadas em madeira pelo escultor Fonseca Lapa. A inscrição colocada, como as demais, sobre a portada, refere: Tirando-o do madeiro. Talvez não seja inconveniente voltarmos um pouco atrás e falarmos de novo, para um mais completo conhecimento do que era a igreja mandada fazer pelo arcebispo Moura Telles. Segundo o livro “Bom Jesus do Monte” do consagrado primeiro bibliotecário da actual Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, Dr. Alberto Feio, “Era uma curiosa e elegante construção elipsoidal, rematando em platibanda rendilhada a voltear sobre a cornija.” Pode observar-se, embora com alguma dificuldade, pelo desenho inserido neste trabalho e que nos mostra o aspecto primitivo do Bom Jesus, isto como era no ano de 1725. Tinha à sua volta pilastras em contraforte, que eram encimadas por anjos com emblemas da Paixão. Apesar da sua originalidade arquitectónica, não foi cuidada a sua segurança técnica, e pouco mais de meio século, em 1780, apresentava a construção sinais de ruína iminente. As paredes, com já dissemos, tiveram de ser escoradas por grossos troncos. Pensou a Confraria em dar solução a este estado do templo. Ouvidas várias opiniões, não chegavam a acordo a Mesa e os Confrades, diziam uns deve fazer-se um novo templo, derribando o actual. Outros pelo contrário achavam que se devia reparar o actual, dado que a Confraria, não deveria meter-se em grandes e dispendiosas quantias. Dado o exemplo anterior, recorreu-se de novo a autoridade máxima religiosa de Braga, ao arcebispo Dom Gaspar de Bragança, para resolver o diferendo. O NOVO TEMPLO O arcebispo recorreu ao conselho de Carlos Amarante que já tinha dado provas do seu saber e, em determinado dia, mandou aprestar o seu coche, puchado por parelha de urcos, abalou acompanhado de Amarante, até à colina do Bom Jesus. Depois de uma análise ao estado da igreja, e aconselhado pelo seu arquitecto, ordenou a demolição do templo em ruína e se escolhesse outro local, por perto e se construísse um novo templo de cujo projecto seria aberto um concurso. Vários foram apresentados. A Mesa Administrativa, apesar de todas as tentativas de alguns mesários contrariando a construção determinada pelo arcebispo votou, em acórdão de 22 de Junho de 1780, confirmada logo a seguir em 1 de Julho, a nova construção. E assim, depois de ouvidas várias opiniões de pessoas de considerada autoridade na apreciação do projecto, optou-se pelo voto do arcebispo e projecto de Carlos Amarante, e em 1 de Junho de 1784, foi lançada à terra e benzida a primeira pedra da nova construção, pelo Provisor do Arcebispado, Dr. Paulo de Barros Pereira. Para levar a efeito este empreendimento, foi necessário recorrer a vários recursos monetários, já que a oposição contra a Mesa, tinha obrigado a que a obra teria que ser feita com a recolha de esmolas e não com fundos da Confraria. Para isso a Mesa, certamente com o beneplácito de Dom Gaspar, consegui provisões régias que a autorizavam a pedir esmolas no Reino, Brasil e mais Colónias para a obra da nova igreja. Por sua vez, Dom Gaspar, concedeu licença aos lavradores, oficiais e jornaleiros, para poderem trabalhar na construção aos domingos e dias santificados. Apesar de todas as ajudas que se seguiram, os recursos iam chegando à míngua, a obra iam consumindo esmolas – por exemplo as colunas gigantes da frontaria, vindas de S. Bento de Donim, no chão de Felgueiras, tinham exaurido o cofre as esmolas - tendo como consequência que a obra ia prosseguindo vagarosamente. Também por certo, as consequências das Invasões Francesas, logo seguidas pelas Lutas Liberais, devem ter contribuído, para que o novo templo fosse sagrado muito mais tarde, apesar de graças à liberalidade do devoto bracarense – Pedro José da Silva – grande negociante em Lisboa, ter contribuído generosamente para que fosse levada a efeito a obra delineada por Amarante, e tivesse sido colocado a última pedra do templo, pela mão do benemérito Pedro José da Silva, no dia 20 de Setembro de 1811. No entanto, como já dissemos, talvez devido aos conturbados tempos da primeira metade do século XIX, a nova igreja só foi sagrada em 10 de Agosto de 1857, pelo arcebispo Dom José Joaquim de Azevedo e Moura, decorrendo, portanto, 73 anos entre o início da construção e a sagração do templo. Há até um aspecto curioso que, de certa maneira, vem confirmar o que acima dizemos. Há tempos um musicólogo americano em visita ao Bom Jesus, ao ouvir o carrilhão, notou que o som de um sino era igual ao timbre do som de uma igreja de uma linha baleeira da costa americana. Curioso, na sua volta à América, procurou indagar o mistério do som e, subindo à torre sineira, deparou na inscrição do sino os dizeres: BOM JESUS - 1810. Nas suas investigações soube que o sino tinha sido oferecido aquela igreja por um oficial de marinha, e o tinha comprado a um soldado em Portugal. Em carta enviado ao falecido amigo Bacelar Ferreira, do Arquivo Municipal, pediu-lhe o favor de verificar se, nas torres sineiras do Templo do Bom Jesus, faltava algum sino. A pedido do meu amigo diligenciamos, e soubemos que não faltava no carrilhão qualquer sino. Consultados os Livros de Actas da Confraria, constava neles apenas referências que os soldados de Napoleão, tinham estado no Bom Jesus, provocando alguns danos, mas quanto a sinos, referem apenas que tinham sido encomendados a uma fábrica de Lisboa. Deve ter sido roubado nessa oficina, pois nessa data ainda se encontravam na fábrica, só sendo remetidos muito mais tarde para Braga. Como vemos, o templo do Bom Jesus, vasta em construção em granito, gizado e delineado por Carlos Amarante, sofreu muitas vicissitudes até chegar ao seu completo acabamento. Três ordens clássicas impõem-se na fachada que tem a coroá-la duas torres de proporções notáveis. Em cada lado da porta principal dois nichos, um em cada lado albergam, entre monumentais colunas cilíndricas, as figuras dos profetas Jeremias e Isaías. Na peanha destas esculturas, a inscrição da do lado direito tem esta inscrição: Ouvi a palavra do Senhor…vós que entrais por estas portas para adorares ao Senhor A lado esquerdo diz: Vós o vereis, e folgará o vosso coração, e vossos ossos como erva brotarão Por baixo das grandes janelas das torres, em compridas lápides estão inscritas as graças espirituais concedidas pelos Papas Pio VI e Pio IX aos visitantes devotos do Bom Jesus e sagração solene da igreja. No entablamento, decorado com friso com triglifos, uma inscrição reza: E nos últimos dias estará preparado o monte da casa do Senhor no cume dos montes, e se elevará sobre os outeiros e com concorrerão a ele todas as gentes. (3 do c. 7) …/… continua no caderno 8


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Bom Jesus 8
B.J.cad. 8 (cont. do cader.7) Uma varanda em granito, suporta as estátuas dos quatro evangelistas com os seus símbolos, e duas lápides sobrepostas às janelas, tem cada uma a sua inscrição, das quais a da direita diz: “O Monte é este em que se agradou Deus morar, porque o Senhor morará nele até ao fim.”Psalm.67,17 e a da esquerda: “Exaltai ao Senhor nosso Deus, e adorai-o no seu santo monte” Psalm. 98,9 No meio da fachada e sobre o grande janelão do centro, está o brasão de armas do rei Dom João VI, o monarca que, por alvará de 29 de Julho de 1822, tomou debaixo da sua Real e Imediata Protecção, o Santuário, com as mesmas prerrogativas e honras das Misericórdias. O frontão triangular, fechado, está primorosamente esculturado em baixo relevo, elementos alusivos à Crucificação de Jesus. Sobre o vértice do frontão uma cruz simples está arvorada sobre um plinto. A fachada é rematada por duas torres sineiras, num estilo que podemos dizer barroco (já o dissemos que nesta fachada estão representados três estilos) sendo a do lado Norte ocupada pelos sinos do carrilhão, que foram produzidos em Lisboa, e para a do lado Sul, foram utilizados os sinos da torre ao lado do templo mandado fazer por Dom Rodrigo. De notar que estas torres, com uns frontões circulares, que se sobrepõem a uma balaustrada, são encimadas por elegantes conjuntos, como torres mais pequenas com janelões, fachos aos lados, rematando com um bolbo invertido sobre o qual se vê um facho flamejante. Descrita, não com muito rigor, a fachada, penetremos no interior do Templo. O T E M P L O Logo na entrada, no templo de cruz latina, sobressai ao fundo altar-mor, o agrupamento escultural do Calvário, atraente composição cénica, com esculturas do artista bracarense, José Monteiro da Rocha, figurado que mais tarde foi corrigido pelos escultores bracarenses, Domingos José Vieira e seu filho Evangelista Vieira. Mas devemos esclarecer que a imagem de Cristo, não é de qualquer escultor bracarense, mas sim a que Dom Gaspar de Bragança mandou esculpir em Itália. É, podemos dizer, o corolário da Via Sacra, que decorre desde o pórtico até ao final do escadório dos Cinco Sentidos. O quadro que se nos apresenta representa ao Centro, ladeado por colunas neo-clássicas, Cristo com esplendor, no seu martírio da Cruz, no Gólgota. Sanefas de veludo, encimada por um frontão curvo, decorado nos seus lados por jarrões e encimado por motivo decorativo. A pintura de fundo representa um aspecto da cidade de Jerusalem. Fora deste conjunto, as figuras dos dois ladrões, pendurados nas suas cruzes – o bom e o mau. Vários soldados romanos com os seus artefactos guerreiros, as Três Marias e outros figurantes. Aos pés dois soldados jogam aos dados a Túnica do Senhor. Nas paredes da Capela Mor, lados, Norte e Sul , estão grandes quadros ovais, em tela, cópias de uns originais de Pedro Alexandrino, recolhidas no Museu do Bom Jesus para evitar a sua degradação pela humidade que ressumbravaria das paredes e até pelo fumo das velas de cera. Estas cópias foram admiravelmente executadas pelo pintor bracarense António Alves. No corpo da igreja, os altares laterais estão decorados com telas de Pedro Alexandrino (1730/1810) e representam os milagres materiais e espirituais de Jesus, assim a Ressurreição do filho de Naim, e a Conversão da Samaritana; o Perdão de Madalena e a cura do leproso; Cristo salvando S. Pedro das águas e Cristo entregando as chaves a S. Pedro; a cena do Parais, com a tentação de Adão por Eva, e outros mais. Este conjunto de telas estão pintados em ponto maior, ocupando a parte superior dos altares ( normalmente em outros templos com imagens) e numa espécie de roda pé, por telas pequenas em baixo. De notar que a única imagem que está neste templo, de início, além das do Golgota, é apenas a imagem em roca, da Senhora das Angústias, no extremo norte do braço do Arco Cruzeiro e em frente no outro lado o altar das Relíquias. Agora encontram-se num altar no arco Cruzeiro, a imagem de Nossa Senhora das Dores, que julgo ter vindo da primitiva igreja de Dom Rodrigo, e uma de Nossa Senhora de Fátima, recente como é a devoção. O órgão que se encontra neste templo pertencia ao Convento de Bouro e foi colocado depois da extinção das Ordens Religiosas, pelo decreto de D. Maria 1ª. Saindo do templo pela porta do lado Norte, vamos deparar com uma pequena capela, em que está representada a imagem do Senhor Agonizante, e sem a chaga do lado aberta, talvez no momento em que exclamou: Pai, porque me abandonaste! Esta imagem, em tamanho natural, é a primitiva do templo mandado erigir por Dom Rodrigo e foi esculturada em Itália. É a ela que os crentes prestam grande devoção dizendo que é a verdadeira imagem de Cristo. Como tal, as paredes estão pejadas de ex-votos, pinturas simples de gente humilde, que retratam os momentos de grande aflição, salvos por sua intercessão. Durante a Guerra Colonial, vários soldados além das suas fotografias, ali deixaram as suas fardas camufladas, catanas e outros objectos guerreiros. Antes da saída do templo, pelo Sul, deve visitar-se a ampla sacristia guarnecida com os retratos dos numerosos benfeitores, e sobre o arcaz, uma vitrina-oratório guarda uma cruz em ébano, marchetada de marfim, com um Cristo de marfim, uma peça que foi oferecida ao Santuário, pelo Viso-Rei da Índia, Dom Diogo de Sousa, Conde de Rio Pardo. O A D R O Como já foi mencionado, depois da morte de Moura Telles, as Confrarias que se sucederam, não deixaram de indo melhorando a estância. Assim por volta de 1732, o recinto que é hoje o adro, foi ocupado por um jardim em labirinto, e entre esta data e 1745 foram colocados novos canteiros, e colocadas, mais tarde, as figuras de José de Arimateia, com uma súplica na mão, (o pedido do corpo de Cristo), Pilatos recebendo-a, Nicodemus com um vaso na mão (contendo os óleos e perfumes para o embalsamamento do Corpo de Cristo) e o centurião com a lança e o broquel (confirma a Pilatos que Cristo está morto). Todas estas estátuas tem na sua base a respectiva inscrição. E como diz, o consagrado Dr. Alberto Feio, no seu já citado trabalho, foi, em parte graças à sua benevolência e iniciativa do bracarense, Manuel Rebelo da Costa, que tinha entrado para as Mesa da Irmandade, em 1749, que se levantaram estas estátuas. Também o mesmo historiador refere que entre 1732 e 1745, foram colocadas as figuras de Anaz, Caifaz, Herodes e Pilatos, de acordo com os acórdãos da Mesa de 23 de Setembro de 1732, 8 de Novembro de 1740 e 22 de Agosto de 1745. O códice da Biblioteca de Lisboa, não faz qualquer referência a estas estátuas. Estas estátuas, colocadas em semi-círculo do lado Sul do adro, tem também o seu significado e representam as ignominias a que Jesus foi sujeito na casa de Anaz, para a de Caifaz e de Herodes até à condenação na de Pilatos. A primeira, na sua inscrição no pedestal, diz : “E Anaz o mandou manietado ao pontífice Caifaz” Joan.Cap.18 v.24 Em frente a esta está de Caifaz, num gesto de rasgar as vestes, por ser uma blasfémia dizer ser Filho de Deus. Este gesto era assim o seu protesto. A inscrição relata: Rasgou aas vestes dizendo: blasfemou. Math.Cap26 v.65 A seguir a estas estátuas, está a figura de Herodes, com os braços estendidos na direcção de Pilatos. A inscrição diz: “E fez escárnio dele, mandando-o vestir com veste branca, reenviou-o a Pilatos.”Luc.Cap.23 v. 11 Pilatos, entregando título que devia ser posto na cruz, na base a seguinte inscrição: “Pilatos, Governador da Judeia,…entregou-lho para que fosse crucificado… e escreveu um titulo … em hebraico, em grego e em latim.”Joan.Cap.19 vv. 16,19,20 Todas as estátuas que se encontram no adro em semi-círculo delimitam um espaçoso largo que forma o adro, quatro de cada lado, estavam a princípio ligadas por parapeitos em pedra com assentos. Esses parapeitos foram arredados para dar melhor acesso ao adro, ficando sem estorvos. Fronteiro a este conjunto, encontra-se o antigo Hotel Sul Americano, agora remodelado e que julgo ter adoptado o nome de Hotel do Bom Jesus. Ao lado esquerdo deste hotel, encontra-se um fontanário cujo aspecto nos leva a pensar ser devido a André Soares. Daqui parte um caminho que vai entroncar com a estrada de acesso, ao templo e mata, no local do túnel do escadório dos Sentidos e passagem aéria do elevador. Do lado norte do adro encontram-se, como já dissemos, quatro estátuas sobre as suas bases, referem-se estas estátuas, á situação depois da morte de Jesus Cristo. A primeira, na qual está representado José de Arimateia, tem a inscrição: “Este foi ter com Pilatos e pediu-lhe o Corpo de Jesus”Luc.Cap.23 v. 52 Fronteira a esta estátua está a de Pilatos, recebendo a petição. O governador da Judeia, tendo a certeza que Jesus está morto, mandou entregar o corpo. A inscrição relaciona-se: “Então Pilatos mandou que se lhe desse o corpo”Math. 27 v. 58 Ao lado um Centurião, com a lança e escudo, trem no plinto os dizeres: “E como o soubesse do Centurião, deu o Corpo a José” Marc. Cap.15 v. 45 A quarta figura, é de Nicodemus, com uma taça na mão esquerda. A legenda: “Trazendo uma mistura de mirra e aloés.”Joan. Cap.19 v. 39 Deixando o adro e dirigindo-nos para o Largo ao lado norte do Templo, encontramos a Casa das Estampas, onde o visitante e devoto pode comprar votos e lembranças da sua peregrinação ao Bom Jesus. Perto encontra-se uma gruta artificial, construída nos primeiros anos do século XX sob projecto de Ernest Korrodi que desenhou outras e outros motivos que se encontram por todo o parque. Sobre a gruta do largo, há caminho dá acesso a uma avenida – dos Sobreiros - onde se encontra uma gruta de concharias, que ali foi parar e pertencia ao jardim do Paço do arcebispo Dom José, hoje Biblioteca Publica e Arquivo Distrital, gruta que é atribuída ao risco de André Soares. Este caminho é também utilizado para chegar directamente ao lago. No miradouro junto ao Hotel do Elevador onde, no verão, está o célebre, óculo que deu origem ao dito “ver Braga por um canudo”, e também uma esplanada, onde o turista pode descansar, e tomar uma bebida ou um café. Neste largo encontra-se o coreto e ao seu lado parte um lanço de escadas que levam ao Terreiro do Evangelistas, ao hotel Parque, ao lago, ao agora remodelado hotel do Lago e ás últimas capelas. No primeiro patamar deste escadório ergue-se a: CAPELA DA DEPOSIÇÃO Também conhecida pela da Unção, ou ainda pela Capela das Lágrimas Alberto Feio, diz no seu trabalho já várias vezes citado. Que é uma construção do Tempo do Arcebispo Moura Telles. No entanto no Códice que também nos tem servido de guia, diz: “A sua formatura e esquadria é óptima e melhor do (que) as dos demais passos. Esta Capela foi feita no ano de 1769 e par ela se fazer precedeu licença de D. José com data de 17 de Junho de 1750. Contém quinze figuras e nela se vê o Santo Sacro Cadáver depositado em um féretro, Maria Santíssima, o Evangelista, Santa Maria Madalena, as Marias, os seis profetas, o centurião. Ao longe o sepulcro aberto e a Cruz, formando lúgubre aparato desta capela. De fronte tem uma fonte de escadaria, com suas pirâmides deitando em uma taça da qual sai água para a fonte dos Sete Castelos e esta água é a melhor do sítio”. A Virgem Maria verte copiosas lágrimas e daí vem o nome porque é também conhecida esta Capela. Alberto Feio afirma que “não é destituída a escultura de Cristo”. A inscrição sobre a porta diz: “Puseram-no no sepulcro.”Act. Apos. C.13 v.29 (4 do caderno 8) …/… continua no caderno 9


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Bom Jesus 9
Cad.9BJ (1 do cad.9) A seguir encontramos a capela da : R E S S U R E I Ç Ã O Alberto Feio, acha-a a mais singela e simples de todas. O códice explica-a deste maneira; “É quadrada da escadaria com seis cunhais e dentro se vê Jesus ressuscitado, os soldados, um dormindo, outro apontando para o sepulcro e os mais despertos e de fronte a esta capela uma fonte que antigamente se chamava de Cupido e hoje é de Hércules. É de escadaria, porém, a fonte é muito antiga”. A imagem de Cristo Ressuscitado, é do século XVIII, e foi seu autor o escultor João Gambino. Por final, que serve de coroa ao Santuário, vamos encontrar uma magnifica praça, o chamado Terreiro dos Evangelistas, ou das Três Capelas, no qual pelo menos uma é atribuída a André Soares. Este espaço é talvez um dos mais aprazíveis locais da montanha sagrada. De novo vamos socorrer-nos de Alberto Feio que diz que este terreiro “se deve à liberalidade e inteligência de Manuel Rebelo da Costa”, um dos grandes beneméritos do Santuário, idealizado por ele, como recorda a inscrição que está por detrás de uma das estátuas e que diz: ANO DE 1767 SENDO ZELADOR E BENFEITOR MANUEL REBELO DA COSTA. É um vasto plano octogonal, adornado com fontes, as estátuas dos três evangelistas, S. Mateus, S. Marcos, S. João e S. Lucas, simbolizados no Anjo, no Leão, no Boi e na Águia, elementos que se encontram ao pé das esculturas. Às três capelas, estão interpostas quatro fontes, encimadas cada uma por um Evangelista. Á entrada deste largo, de um e do outro lado, vêem-se as fontes de São Marcos e São Mateus, que lançam água para uma taça pela boca um leão e de um anjo, símbolos dos dois autores das Escrituras. A de S. Marcos, tem as letras, na inscrição: “Conforme está escrito no profeta Isaías… voz que clama no deserto”Marc. C. IV, v. 2, 3 Na de S. Mateus, lê-se: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão” Math. C. IV v. 1 As restantes duas fontes com as estátuas dos Evangelistas S. João e S. Lucas, que ladeiam a capela central, lançam água também pela boca de uma águia e de boi, dois símbolos destes autores dos Evangelhos respectivos. A inscrição da imagem de S. João tem no seu pedestal a inscrição: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” Joan. IV, 1 Na de S. Lucas, o letreiro diz: “No tempo de Herodes, Rei da Judeia, houve um sacerdote por nome de Zacarias” Luc. C. IV, 5 AS TRES ÚLTIMAS CAPELAS ( 2 do caderno 9) No Terreiro dos Evangelistas Entrando à esquerda deste terreiro, um dos mais aprazíveis locais desta montanha sagrada, deparamos com a primeira capela que representa a: APARIÇÃO DE JESUS A MADALENA Nesta capela aparece Jesus Cristo a Madalena na figura de um hortelão, num jardim com uma enxada segura na mão esquerda. Mais desviadas as Marias com as urnas dos bálsamos, os anjos mostrando-lhes o sepulcro aberto, as sentinelas espalhadas compõe todo o conjunto. “Foi a capela fundada em 1763, e reformadas as figuras e postas em outro arranjo em 1790”, diz o Códice. Sobre a verga da porta tem a inscrição: “Apareceu primeiramente a Madalena”. Mar. C. 16, 9 Para a parte Sul fica a capela do: ENCONTRO DE EMAÚS Jesus Cristo, sentado à mesa, “num pitoresco interior do século XVIII”, diz Alberto Feio, se dá a conhecer aos discípulos partindo o pão. O Códice refere que esta capela foi fundada em 1760, transformada em 1790, numa hospedaria, reformadas as figuras e demolido o Castelo que lhe dava o nome de “Castelo de Emaús”. Sobre a verga da entrada está a inscrição: “Conheceram a Jesus ao partir o pão”.Luc. 24, 35. Coroando estas capelas encontra-se ao centro, entre elas, num êxtase deste corolário (seguimos o Códice) idealizado por Dom Rodrigo, a: CAPELA DA ASCENÇÃO Está entre as outras duas capelas, e pela leitura do documento de que nos temos servido diz: “No meio do terreiro está esta última capela, que por sua grandeza e formosura é superior a todas as outras. Nela se vê Jesus subindo ao Céu, cercado de resplendores. No monte Doze Apóstolos, as Marias e alguns discípulos em diferentes e ternas acções de saudade e admiração. A Santa Virgem de joelhos adorando o eu filho. Esta Capela foi feita no anos de 1750”. A porta tem a sobrepujá-la tem a inscrição: “… foi assumpto ao céu ..” O conjunto arquitectónico deste terreiro, “com a circunspecção de claustro monacal”, diz Alberto Feio, tem no seu centro uma elegante chafariz, elevado numa plataforma de três degraus, que de uma coluna trabalhada, encimada por uma esfera armilar, um dos símbolos da Ordem de Cristo, a qual é rematada por uma cruz simples, sai água que é recebida numa taça, que por sua vez vai cair num tanque. Todo este arranjo, povoadas de insinuantes esculturas, capelas de insinuante estilo ró-có-có, torna o recinto, como já dissemos um local dos mais apetecidos e reconhecido da estância religiosa que é o Bom Jesus. Do murete que circunda a Capela da Ascensão, desfruta-se um belo panorama, sobre o vale do rio Este, que acrescenta mais um aos que de toda a estância nos é dado admirar sobre a cidade e lugares mais longínquos de grande parte do Minho. Aqui acaba, podemos dizer, a parte religiosa de todo este monumental sítio, que é a Montanha Sagrada, no entanto não queremos deixar de mencionar o entusiasmo com que o memorialista do Códice da Biblioteca Lisbonense descreve como que era o Santuário como Dom Rodrigo o idealizou e Villa-Lobos, o desenhou e o local onde foi criado: “O Santuário é sumptuoso no edifício, abundante de cristalinas água, que nele rebentam por todos os lados, ornado de jardins e passeios públicos, deleitoso nas vistas não só nos vales e veigas que lhe são vizinhos, mas também se descobre o mar em distância de cinco para seis léguas. Algumas vilas como Barcelos, Vila do Conde, os montes do Gerez e de Coura e em toda a circunferência oferece a natureza o mais belos espectáculo da Europa, como o atestam os mais fidedignos romeiros que diariamente concorrem não só da Província e Reino mas também de toda a Europa.”. Ao lado deste Terreiro dos Evangelistas, encontra-se agora o remodelado Hotel do Parque. Seguindo por um estradão vamos deparar com um aspecto do Bom Jesus, o qual é um local imprescindível numa visita à mata do Bom Jesus. Em 27 de Janeiro de 1806, por um alvará régio, a parte baldia que envolvia o Santuário foi doada à Irmandade, o que veio não só a aumentar o seu património mas também engrandeceu os seus limites territoriais. A doação reflectiu-se na exploração de águas, criando-se então lugar da Mãe de Água do qual já falamos a propósito das Escultura de Moisés. Ali se construí um lago para depósito de água que acabou por fornecer água a muitos fontanários e até ao Elevador de que falaremos adiante e criou-se um espaço mais amplo para as merendas dos romeiros. Anos depois, em 18 de Julho de 1877, o Governador Civil, Marquês de Valadas, por alvará fez eleger uma Comissão, para administrar o Santuário, dado que a então mesa administradora estava a ser acusada de menosprezar os interesses do Santuário. Desta Comissão fazia parte o Dr. António Brandão Pereira que tomou a peito transformar a parte superior da estância. As clareiras foram plantas com árvores vindas do Gerez, e os lugares onde existia mata espinhosa, foi coberta de vegetação especial, e construi-se um grande lago, que hoje é a delícia de muitos navegantes, adultos e crianças. …/… Continua no caderno 10)


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