Domingo, 26 de Maio de 2013
consequencias da 2ª g.Guerra

                  CONSEQUÊNCIAS DA SEGUNDA

                             GRANDE GUERRA

 

 

      Quando em 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu o corredor de Dantzig, cortando o acesso da Polónia ao mar do Norte, único local por onde este país tinha saída, ligando assim o território alemão à Prússia Oriental, a Inglaterra e a França, querendo, finalmente, por um travão ao expansionismo germânico vindo a assinalar-se desde meados dos anos trinta do século actual, expansão iniciada pela ocupação da Alsácia-Lorena, seguida da Áustria e Theco-Eslováquia, ameaçaram  com um ultimatum a Alemanha que caso esta não retirasse de Dantzig, até ao dia 3 (domingo), lhe declarariam guerra.

      Não respeitando o ultimatum a Alemanha não só não se retirou do corredor como se lançou, imediatamente, na conquista do país mártir que ao longos dos séculos foi sempre a Polónia.  É certo que para esta conquista muito contribuiu a Rússia, que em 24 de Agosto anterior, tinha estabelecido com a Alemanha Nazi, um Pacto de não agressão, pacto que deu origem a que a Polónia fosse também invadida pelos soviéticos nesses primeiros dias de Setembro.

      Como haviam afirmado as então Nações Aliadas - Inglaterra e França - nesse trágico domingo de Setembro, declararam a guerra, início da hecatombe que assolou o mundo durante seis anos, e que acabou por espalhar-se a quase todos os países terráqueos.

      Portugal, apesar de não se ter envolvido directamente nessa Grande Guerra, acabou também por sofrer as suas consequências. Foram não só as mobilizações de tropas, braços que muita falta fizeram, principalmente na agricultura - em 1943 chegaram a ser dispensados os recrutas, durante o período das colheitas - militares que em missão de soberania foram ocupar os Açores e a Madeira,  e ainda os antigos territórios ultramarinos, como a Guiné, Cabo Verde, Angola, Moçambique, India e Timor - onde chegaram a combater tendo ao seu lado os timorenses, os invasores nipónicos - como a falta de géneros alimentícios e combustíveis que tiveram de ser racionados, ração que mal chegava para as necessidades, como no caso do açúcar, arroz, azeite e outros produtos essenciais.

      Tudo essencial faltava. A gasolina, que a principio era distribuída, racionada de acordo com a matrícula dos carros - pares num dia e impares no outro - acabou, primeiro, por serem abastecidas as viaturas num único dia da semana e, finalmente, até este abastecimento acabou quase por completo, dando origem a que muitos dos carros, ficassem arrumados nas garagens à espera de melhores dias. Mas o problema dos carros também tinha a ver com os pneus. Fez-se sentir muito a falta de borracha, matéria prima, cujo principal abastecedor era o conjunto das ilhas do Pacífico, então ocupadas pelo Japão, que com a Alemanha e Itália, tinha formado o famoso Eixo  - Berlim, Roma, Tóquio -  alinhando assim com dos dois países europeus na guerra contra a já então entente formada pela Inglaterra, França e América do Norte.  Alguns carros,  entretanto, tinham substituído o seu combustível normal, pelo de gaz produzido pela queima de lenha -  os famosos GAZOGÉNIOS - recurso de que se serviram principalmente os transportes públicos. Ora, era vulgar ver viaturas utilizando velhos pneus, encapando outros, também velhos, num género de aproveitamento que mais tarde se utilizou, tomando o nome de manchões, quando passaram a remendar, podemos dizer, alguma mazela no pneumático. Mas não era só a parte exterior da roda, também o seu interior necessitava de borracha - a camara de ar. A falta também aqui se notava e o remédio, luminoso para muitos, foi substituí-la por PALHA.

      Foram tempos muito difíceis para os portugueses. A falta de géneros obrigava, por vezes, muitos a arriscarem a andar quilómetros e quilómetros em busca de um litro de azeite, de um quilo de açúcar ou arroz, este em muitos casos substituída por uma gramínea - a cevadinha - um naco de sabão outros géneros e produtos essenciais, para quase já perto de casa aparecer-lhes a fiscalização da Intendência Geral de Abastecimentos ou qualquer autoridade que não só apreendia os géneros, como ainda lhes instaurava um processo como açambarcadores só resolvido em Tribunal Militar. Certa vez, procederam ao julgamento de VINTE E SETE AÇAMBARCADORES, a maior parte dos quais tinha sido apanhado pela fiscalização com um mísero quilo de um dos géneros

      Nas pensões, restaurantes e hotéis as refeições apenas podiam ser servidas durante um escasso número de horas. Ao meio dia elas só podiam ir das doze às catorze e, na ementa, só era servido meio pão molete. Quem chegasse atrasado, por qualquer motivo, não podia ser servido e nenhuma desculpa era aceite.

       Com todos estes entraves - racionamento cada vez mais apertado, falta de tudo - as bichas eram enormes quando constava que se iria proceder à distribuição de qualquer produto racionado. Os serviços de segurança pública eram impotentes para estabelecer ordem, na razão da chegada, e muitas vezes foi necessário recorrer aos serviços militares para obstar as desordens. Dava-se muito isto no Porto, e a afirmação é com conhecimento de causa, de o pelotão de reforço de guarda ao antigo Regimento de Infantaria 6, ter de sair, alta madrugada, para impor ordem na bicha formada no Mercado do Bolhão, quando ali a CUF, procedia à distribuição de sabão ou azeite, por exemplo.

       Nos quarteis, onde a falta de géneros não se fazia sentir como acontecia com o restante da população, por vezes, havia necessidade ser abatida uma muar, dada como incapaz, e a sua carne lá ia parar ao rancho geral. Mas a falta de produtos essenciais era notória o que levou o Governo a tomar  certas medidas e dar vários conselhos à população no sentido de um melhor aproveitamento das nossas disponibilidade.

       Assim surgiu o conselho de que se deveria fazer em toda a parte em que isso fosse possível a criação de galinhas e coelhos. Foi então um entusiasmo excecional, surgindo em todo o lugar, coelheiras e galinheiros. Pouco depois, viu-se que a criação de coelhos não resultava, pois comiam mais do que o que deles se podia aproveitar.

       Também foram todos aconselhados a aproveitar todos os bocados de terra - jardins - e aí plantassem alguns dos produtos que estavam a faltar, como por exemplo milho ou batatas. Assim vemos que na acta camarária de 1941 - 1942, a fol. 24, de 15/ 01/ 1942, é proposto ser utilizado parte do terreno do Campo de Aviação para cultivo, tendo sido adjudicado o terreno para esse fim, conforme está exarado na acta a fol. 31 v, de 5/ 02.

       Por sua vez, fol. 24 v. - 22/ 01/ , o Governo Civil, afim de evitar doenças, oficia à Camara no sentido de providenciar para que sejam mantidos com a máxima higiene as coelheiras e galinheiros, instalados devido aos efeitos da guerra.A Camara, em 5/ 03/ , fol- 45, resolve abrandar as suas posturas, permitindo pela falta de carne em Braga, que esta poderia ser importada dos concelhos limítrofes.

       Como já acima dissemos a falta de gasolina era outro dos grandes problemas, e até para os bombeiros acudirem a sinistros. Na mesma acta, e a fol. 110 v. vemos que foi resolvido, por motivo do racionamento de combustível, fazer uma escala entre os Bombeiros Municipais e os Voluntários.

       Entretanto e para aproveitamento de terrenos para cultivo, sabe-se que - fol. 148, 6 de Dezembro, os terrenos sobrantes do Cemitério foram aproveitados para plantar diversos produtos (milho, centeio, fava, etc.) para servir de alimentação . . .às muares do serviço de limpeza!

       Outro grande problema se punha aos médicos. Com a falta de gasolina, não podiam, a maior parte das vezes, atender aos pedidos de serviços médicos de urgência. Para resolver este assunto, foi proposta à Camara - fol. 168, 8/ 10/, que "atendendo às dificuldades de transporte, seja permitido aos médicos da cidade, utilizar entre a meia noite e as sete horas, a ambulância dos Bombeiros Municipais para os serviços urgentes."

      Como se vê foram tempos muito difíceis para os portugueses, cujos efeitos se prolongaram ainda por mais alguns anos depois da cessação das hostilidades.

       E para terminar, e em jeito de piada, vamos aqui contar um episódio que decorreu passados tempos após o términus da guerra.  As pessoas que tinham instalado os seus galinheiros e coelheiros nas varandas das suas casas, continuaram, tal foi o hábito criado, com essas instalações.  Ora, ali para o Porto, um individuo tinha na sua varanda, um galinheiro, onde pontificava um belo galináceo. Todas as madrugadas, anunciando o nascer do Sol, o seu cantante grito, acordava um vizinho. Este rabugento, protestou perante o dono do galo, nada lhe valendo a sua reclamação o que o levou a apresentar queixa no Tribunal. Chegado ao dia do julgamento, o proprietário do galináceo foi mandado em paz, com a alegação da FALTA DO CORPO DE DELITO, que entretanto tinha sido sacrificado a uma boa arrozada de sangue.

 

      E por hoje nada mais.

     

Braga, Dezembro de 1995

                             LUIS COSTA



publicado por Varziano às 14:18
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