Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Expostos 2
Expostos 2 – continuação Como dissemos a Câmara, não tendo possibilidades para as necessárias obras de remodelação da casa dos expostos do Campo de Touros, e para obter alguma comparticipação nos encargos com as instalações alugadas e também conseguir alguns proventos para ajuda da sustentação dos expostos resolveu vender o antigo albergue. A isso se opôs o arcebispo alegando que o prédio pertencia ao arcebispado. Valeu à Câmara o registo da troca e escambo inserida no livro de Tombos com a afirmação confirmada por Dom José de Bragança, arcebispo. Sem mais entraves procedeu-se à venda do prédio que, segundo nos parece, é onde hoje está instalada a farmácia Coelho. O REGISTO DOS EXPOSTOS Quando uma criança era lançada na roda, a rodeira, pessoa encarregada de ter à sua conta o cargo da roda, assim chamado o recipiente onde se colocavam os expostos – cilindro aberto por metade de um lado e fechado pela outra metade – tinha ao seu lado um sino ou campana que servia para chamar a atenção que o sítio tinha lá freguês. A rodeira, logo que o recolhia tinha de ter o cuidado de ver qual a marca que a criança trazia – por exemplo uma tesourada no cabelo junto à testa ou orelha, uma medalha, com a figura de um santo ou qualquer outro símbolo, uma fralda de determinada cor – isto é, qualquer coisa que a pudesse vir a identificar, no caso de mais tarde vir a ser reclamado. Num livro próprio, era anotada essa marca e bem assim a data em que foi encontrado na roda. Por vezes, um bilhete anónimo colocado na sua roupa informava que o exposto já tinha sido baptizado e indicando também o nome de baptismo. Outras missivas pediam para o baptizarem indicando um nome que deveria ser-lhe posto. Muitas e muitas vezes, apenas traziam a marca e mais nada. Cabia ao vereador dos expostos – sempre havia um com este cargo - de resolver os problemas e anotar no respectivo livro os elementos que serviriam mais tarde para os identificar para entrega a quem, de direito, os reclamasse. Convém anotar que muitas vezes a entrega à Casa da Roda de um exposto, era motivada pela falta de condições das mães pelo seu sustento e tratamento e não por simples abandono. As crianças eram mantidas sob a administração da instituição até aos sete anos, idade em que eram reclamadas pelos seus familiares, quando estes apareciam, ou passavam para outras instituições, onde houvesse vaga. A Câmara só era responsável até aos sete anos, partindo do princípio, errado, de que um ente com sete anos já se podia defender !... O Director da Casa, entregava sempre que possível, os expostos a amas criadeiras, pagando a cada uma, isto em 1876, a importância de 260 reis diários, como salário, para o seu sustento e criação dos expostos. Se é certo que algumas os acarinhavam como seus filhos, outras havia que apenas serviam para os explorar, dedicando-os à mendicidade. O vereador constantemente procedia, podemos dizer a um inquérito, convocando as amas e as crianças para evitar abusos. Tinham os expostos um certo apoio médico e até, quando o médico do partido achava necessário, iam a tratamento termal e até a banhos de mar. Curiosa era a maneira, pelo menos no que diz respeito a banhos de mar, como se processava essa ida a banhos. O médico indicava o número de mergulhos no mar e o vereador passava a guia dirigida à autoridade do local onde se iria fazer o tratamento. Por umas actas da Câmara de Braga, de meados do século dezanove sabemos como se processava esse tratamento. Depois de ser atestado pelo médico a necessidade de banhos de mar de um determinado exposto, foi escolhida a praia da Póvoa de Varzim. Passada a autorização, foi então passada uma guia na qual estava mencionado o nome do órfão ou exposto e bem assim o nome da ama. Esta recebeu a quantia necessária para a deslocação e tendo como obrigação de, chegada à Póvoa, se apresentar ao Administrador do Concelho para, no registo poveiro, ser anotado o número de banhos prescrito pelo facultativo. Findo o tratamento a ama voltaria à presença do Administrador do Concelho para este passar atestado em como, o menor, tinha cumprido a prescrição médica, isto é, tinha dado o número de “cachafundas” medicadas, atestado que serviria para apresentar ao respectivo vereador, em Braga, provando que se tinha cumprido com a receita médica e assim poder, a ama, receber o estipêndio acordado. Este foi, talvez, uma maneira, prática e cómoda, de uma ama passar umas férias e provar as salsas águas do mar da Póvoa!... Alguns dos recolhidos na Casa da Roda, apesar do seu triste início de vida, vieram mais tarde a ser a compensados pelo seu trabalho e até pela sorte. De alguns temos exemplos extraordinários, apesar o estigma que os apontava como Expostos no seu nome. Aqui bem perto de Braga, um dos grandes empresários tinha no final do seu nome o de Exposto, por certo por não ter ido reconhecimento. Um outro, recolhido no final do século dezanove, chegou a ser um capitalista e, no final da sua vida, considerado um benemérito e homenageado com todo o direito. Recolhido na Roda de Braga, foi aos sete anos entregue a um dos principais comerciantes desta cidade e que quando o viu completar catorze anos o encaminhou para o Brasil, onde pela sua honradez e trabalho, angariou uma considerável fortuna. De regresso a Portugal, trouxe consigo o mal daqueles tórridos e húmidos climas do Amazonas, o reumatismo. Procurando remédio em quase todas as termas nacionais e experimentando todos os remédios aconselhados, nunca surtiu melhoras até, alguém o aconselhou os banhos quentes, da Póvoa do Mar. Assim procurou a Póvoa, onde talvez tivesse tido a dita de, em miúdo, por lá passar. Foi remédio santo. As melhoras se foram acentuando de tal maneira que naquela praia fixou residência e por lá acabou os seus dias. Foi um grande benemérito da Póvoa que em agradecimento atribuiu o seu nome – Santos Minho - a um arruado poveiro e lhe construiu um mausoléu no Cemitério da Giesteira. O seu nome da baptismo era o de João Santos, mas adoptou o de Minho, província que o viu nascer. Notável foi a sua acção perante a Câmara de Braga. No seu testamento deixou à edilidade bracarense, o importante donativo de duzentos mil reis, afirmando que julgava seria, talvez, essa quantia que tinha sido dispendida pela Câmara, com o seu internamento na Casa da Roda. Braga, 2 de Novembro de 2008 LUIS COSTA www: bragamonumental.blogs.sapo.pt www: bragamonumental2.blogs.sapo.pt www: varziano.blogs.sapo.pt email: luisdiasdacosta@clix.pt.


publicado por Varziano às 22:37
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

27
28
29
30
31


posts recentes

consequencias da 2ª g.Gue...

Bom Jesus 1

Bom Jesus 2

Bom Jesus 3

Bom Jesus 4

Bom Jesus 5

Bom Jesus 6

Bom Jesus 7

Bom Jesus 8

Bom Jesus 9

arquivos

Maio 2013

Dezembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds