Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
O paço dos Arcebispos 2
Paço dos Arcebispos 2 – continuação Como dissemos, parte do Paço de Dom José esteve em ruínas até princípios dos anos trinta do século XX. Como as instalações da Biblioteca Pública então instalada no edifício do antigo Convento dos Oratorianos (Congregados) se estavam a tornar exíguas dado o constante aumento do seu espólio, principalmente desde que passou a ser uma das que passaram a ser de depósito obrigatório de todas as publicações em português, tornou-se necessário pensar-se em novas instalações. Eram então director da Biblioteca o Dr. Alberto Feio e sabendo de que em 1918, o ilustre bracarense Dr. Alfredo Machado, então chefe do Gabinete do Ministro da Instrução, Dr. Alfredo de Magalhães, tinha conseguido a cedência do edifício do velho Paço para as instalações da biblioteca, segundo informação do já citado Dr. Egídio, tratou de providenciar para a sua transferência dos Congregados. Graças ao seu bom relacionamento com o Dr. Antunes Guimarães, então Ministro das Obras Públicas, sugeriu a este para que as instalações da Biblioteca, então já tendo a si anexado o Arquivo Distrital de Braga, viesse enfim a ocupar o antigo Paço de Dom José, muito embora para isso se tivesse de proceder a obras de restauro da parte do edifício em ruínas. Anuiu o Ministro, através das receitas do Fundo de Desemprego, em desbloquear a verba precisa e, assim, depois de feitas as obras de restauro, a Biblioteca abandona as primitivas instalações na Avenida Central e, em 2 de Dezembro de 1934, foi inaugurada, sob a presença do Ministro Eng. Duarte Pacheco, na Praça do Município, a Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, instituição que é, depois da Torre do Tombo, talvez, o mais importante repositório bibliográfico e arquivista do País, pelo menos na parte da História da Igreja, não só bracarense mas até do País. Deixemos a Praça do Município e pela rua da Misericórdia vamos em direcção ao Largo do Paço. Aqui logo nos ressalta à vista a elegante fontanário chamado Chafariz dos Castelos, datado de 1723, por representar no seu conjunto ao redor da taça seis castelos e ao centro o sétimo que representa o brasão de fé do Arcebispo que o mandou fazer, Dom Rodrigo – sete castelos – (Mouras) que herdou do seu ramo materno. É encimado pela estátua da Fama, e sobre a sua cabeça, uma esfera armilar, um dos símbolos da Ordem de Cristo à qual o arcebispo pertencia. Ocupa, neste espaçoso largo, o lugar de um que foi mandado fazer por Dom Diogo de Sousa. Julga-se ser uma obra de Marceliano de Araújo. Mas principiemos pelo lado poente deste espaço, a denominada galeria assente em catorze grossas colunas de granito. Deve-se esta galeria ao arcebispo Dom Agostinho de Jesus (1587/1609), como o comprova o seu brasão (seis arruelas em duas palas – dos Castros) colocado entre quatro portadas com varandas, duas de cada lado. Na legenda latina lê-se a inscrição “D. Agostinho de Jesus, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas”. Também se pode ver este brasão no varandim voltado para o Largo Dom João Peculiar. Actualmente o andar criado por D. Agostinho, serve de arquivo onde estão arquivadas muitas das revistas publicadas em Portugal. Dá acesso a esta parte da biblioteca, a Sala Dr. Manuel Monteiro, que encerra todo o seu valioso espólio bibliotecário e bem assim a pintura de Columbano, que representa este ilustre bracarense, político, historiador, ministro e jurista que representou o seu País no Egipto e em Haia. A fachada oposta é devida a dois arcebispos – Dom Rodrigo de Moura Telles e Dom Manuel de Sousa – e como tal representa dois edifícios distintos. O que está no gaveto formado com a rua do Souto – e que aí principia – é devido ao primeiro, como comprova o seu brasão de fé colocado no frontão sobre a porta de entrada. Era a chamada casa do guarda. O seguinte foi mandado edificar por Dom Manuel de Sousa (1544/1549), para servir de Tribunal da Relação, também tem gravadas as suas armas – escudo esquartelado, tendo no primeiro as quinas; no segundo um braço alado com a espada em punho e no terceiro e quarto um leão (armas dos Sousas). Funcionou durante muitos anos nesta casa o Tribunal da Primeira Instância Civil. Inicialmente foi destinado aos vários cartórios eclesiásticos, arquivos e ao Tribunal do Juízo Eclesiástico e o da Relação Metropolitana. Tem sobre a porta de entrada uma inscrição epigráfica latina que traduzida, diz: “Para ilustrar a cidade, e haver um tribunal permanente, onde se administre a justiça e não instável como dantes. Manuel de Sousa, pai e senhor da cidade e grande sacerdote da justiça mandou construir este célebre edifício”. Aqui esteve até cerca de 1860, o Tribunal Civil, quando a Câmara comprou em hasta pública, o palácio dos Costa Pereira, onde passou a funcionar, no largo Conselheiro Torres e Almeida, não só o tribunal, como o Registo Civil e o Registo Predial. Entre este corpo – nascente – e o da Galeria – poente – mandou Dom Rodrigo edificar o corpo norte, ligando-os e é hoje pode dizer-se a entrada Nobre do Paço. Sobre a porta e varanda, colocou o seu brasão de fé e na verga da porta foi inscrita a inscrição latina “Ó Domus antiqua quam dispari domino dominaris - ano de 1709”, que traduzindo dá “Ó casa antiga! Quanto é diferente o Senhor que te possue”, frase que foi dita quando Dom Frei Bartolomeu dos Mártires ali chegou e que, modestamente, ainda acrescentou ao recordar-se dos muitos varões ilustres e Santos Prelados que o tinham antecedido: “Como é indigno o que hoje vem ocupar o vosso lugar”, frase latina que é atribuída a Cícero. Penetrando por esta porta, entramos num espaçoso átrio, onde nas paredes se vêem preciosos azulejos hagiográficos e de tapete, aproveitados os primeiros dos claustros do Convento de Tibães e os segundos da igreja dos Remédios. Um elegante escadaria, com azulejaria nos lambris atribuídos a André Soares, dá acesso ao Salão Nobre do andar superior. Como curiosidade, atribui-se ao desenho das figuras deste lambril, o feitio das “mitras” dos universitários da Universidade do Minho. No patamar que se segue ao primeiro lanço de escada, vê-se ao alto e no centro, colocado num nicho, uma figura - um turco – tendo nas mãos um archote de várias luzes – semelhante ao do Palácio do Raio - com uma inscrição que, segundo a interpretação livre do falecido padre jesuíta Dr. Diamantino, poderá interpretar-se como : “Por onde vás, infiel, sempre a luz da igreja te alumiará”. Por esta escada se penetra nas dependências superiores da Biblioteca e Arquivo, onde se encontra o valioso espólio de muitos e muitos cartórios dos vários conventos da região extintos em 1834, a Sala do Arcaz, com uma bela imagem gótica da Mãe de Deus, a Sala dos Manuscritos em pergaminho, como o documento da Confirmação do Couto de Braga, concedido por Dom Afonso Henriques, o Livro das Ruas de Braga, no século XVIII, a dos relativos ao Cartório do Cabido da Sé de Braga, o Registo Paroquial e o das Inquirições. Não podemos esquecer que ali se encontra o célebre livro “Liber Fidei”, que mereceu do Padre Prof. Dr. Avelino de Jesus Costa, uma extraordinária análise publicada em três tomos e ainda “Rerum Memorabilium”, além de outras preciosidades relacionadas com a história da Igreja e de Braga. CAPELA DO PAÇO ARQUIEPISCOPAL Uma obra de Dom Rodrigo que não chegou aos nossos dias, foi a criação no Paço Arquiepiscopal da Capela do Paço, situada entre a parte traseira da Galeria e a que mais tarde, no tempo do seu sucessor Dom José de Bragança, e o paço deste arcebispo, voltada para o Campo de Touros (Praça do Município), e que hoje podemos situar no espaço vasio que se vê da sala de leitura. Diz Albano Belino, em “Archeologia Christã” que despendeu o Dom Rodrigo com a sua construção dois contos de reis e mais um conto e seiscentos mil reis com a torre e os sinos. Tinha a forma de cruz grega. Quando da sua demolição uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, passou para a capela do Seminário Menor. Como lembrança desta capela, ainda há bem poucos anos, na indicação das igrejas onde se celebrava, na Quaresma, a devoção do Sagrado Lausperene, se anotava: “no dia… na igreja… pela Capela do Paço”, por então este templo já não existir por ter sido demolido. A mesma coisa acontecia em relação à igreja dos Remédios: “… pela igreja dos Remédios”. Aproveitando o ensejo, muito embora não tenha a ver com os edifícios do Paço dos Arcebispos, creio que não fica mal a informação de como e quando foi instituída em Braga, a devoção do Sagrado Lausperene. Segundo Monsenhor Ferreira, nos “Fastos”, ela principiou no tempo de Dom Rodrigo e para melhor esclarecimento, vamos copiar o que o Monsenhor diz: “LAUSPENE NA QUARESMA.- Uma das instituições piedosas de Braga. e que nesta cidade se tem conservado com mais ou menos brilho, mas sempre com grande e devota concorrência de fiéis, é o Jubileu das Quarenta Horas, vulgarmente chamado “Lausperene”, isto é, louvor contínuo a Cristo Senhor Nosso Sacramentado durante todo o tempo da Quaresma, estando para isso incessantemente exposto, de dia e de noite, o Santíssimo Sacramento, quarenta e oito horas, em cada uma das principais igrejas desta mesma cidade. Este Lausperene, que começa na Catedral em Quarta feira de Cinzas, e termina na mesma Catedral com a Procissão da Ressurreição no Domingo de Páscoa, foi concedido por Bula de Clemente XI, expedida a instâncias do Arcebispo Moura Telles, em 12 de Outubro de 1709, e inaugurado na Quaresma do ano seguinte, 1710” . . . / . . .


publicado por Varziano às 15:27
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

27
28
29
30
31


posts recentes

consequencias da 2ª g.Gue...

Bom Jesus 1

Bom Jesus 2

Bom Jesus 3

Bom Jesus 4

Bom Jesus 5

Bom Jesus 6

Bom Jesus 7

Bom Jesus 8

Bom Jesus 9

arquivos

Maio 2013

Dezembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds