Domingo, 20 de Dezembro de 2009
Bom Jesus 3
Caderno 3 – (1 do c.3) À mágoa da cidade, continua Alberto Feio, e ao descontentamento geral, juntavam-se os insultos contra o capitular pela odiosa exploração. Em 1720, era arcebispo de Braga Dom Rodrigo de Moura Telles, os confrades anda existentes, vendo o estado lamentável a que tinha chegado o templo devido ao quase abandono com a administração do Deão, e não querendo que Braga perdesse a devoção ao Bom Jesus pela ruína do Santuário, recorreram ao Desembargador Juiz dos Resíduos para que ordenasse a constituição de uma Mesa Administrativa do Santuário. Obtido o deferimento procedeu-se judicialmente à eleição, que resultou como eleito Juiz, Francisco de Sousa e Castro, pessoa de grande respeitabilidade, Fidalgo da Casa Real, talvez a única pessoa que pudesse ombrear com o Deão, intimando-o a fazer a entrega de todos os haveres da confraria. Porém já nada existia, nem sequer havia notícia dos primitivos estatutos e então foi lançado pregão por Campa Tangida para reunião da junta de irmãos onde foi proposto e aprovado novo estatuto em 29 de Dezembro, estatutos que foram confirmados por provisão de 21 de Abril de 1721, pelo arcebispo Primaz, Dom Rodrigo de Moura Telles. Mas o pleito entre o poderoso Deão e a nova confraria, continuava sem resolução e com as consequentes demoras. É então que Dom Rodrigo de Moura Telles, entra na história do Bom Jesus do Monte. Passando por cima dos Estatutos, nomeia-se ele próprio, Juiz da Confraria. Rodeia-se de pessoas notáveis e perante tão forte personalidade, como era a do arcebispo, verga-se o Deão Dom Francisco. Hábil político como hábil era na usurpação de direitos, foi junto de Moura Teles e, submisso, subjuga-se, desistindo da sua jurisdição sobre o templo do Bom Jesus, por si e por todos os seus sucessores, mediante o irrisório foro por ano de duas galinhas e mais uns ovos, reservando para si o direito de escolher o ermitão de entre três nomes que a Confraria indicasse. É então que o Bom Jesus vai entrar na fase de prosperidade, é certo que agora e adiante, por vezes, essa prosperidade fosse obscurecida. O povo da cidade rejubilou, ele que nunca tinha visto com bons olhos a administração do Deão da Sé. Logo após a sua posse, como Juiz da Confraria, Dom Rodrigo de Moura Telles ( alma grande em corpo pequeno ), trata do restauro do futuro Santuário. Chama para dirigir as obras, fazer o risco da nova estância, o seu arquitecto, o Coronel de Engenharia Manuel da Silva Villa-Lobos, pessoas que já tinha dado mostra da sua competência, quando do trabalho da Cadeia da Relação, no Largo de São Francisco e talvez na igreja e convento da Penha de França, na Alameda de Sant’Ana. Delineou os escadórios iniciando-os pelo pórtico acessível por um lanço de escadas em semi-circulo, tendo em cada lado um tanque/fontanário encimado cada um por um arco no qual se destaca no fecho a representação do Sol e da Lua. Este lanço de escada dá acesso a um patamar vedado por um gradeamento em pedra, com elegantes pilares. Aqui se levanta o pórtico, com ombreiras lavradas em granito rústico, que sustentam um arco que se nos afigura abatido, mas que foi projectado de volta inteira e cedeu devido ao peso dos elementos que o decoram superiormente ( há quem afirme que cedeu aquando do terramoto de 1755 ), sobrepujado por uma cornija em que assenta uma cruz arcebispal, com a imagem do Senhor Crucificado. Ladeada por quatro esferas e mais duas nos extremos sobre os pilares. Ainda este arco tem a ornamentá-lo o Brasão de Fé do Arcebispo Moura Telles, o restaurador, como sabemos do Santuário. Na parte interior do pórtico, nota-se o complemento do brasão - um esfera armilar sobre a Cruz da Ordem da Cristo, símbolos da Ordem da qual era membro. No exterior, patamar, ao lado dos pilares, duas inscrições pétreas, lembram a acção de Moura Telles e que rezam numa: JERUSALEM SANTA RESSUSCITADA E REEDIFICADA NO ANO DE 1725 e na outra: PELO ILUSTRISSIMO SENHOR DOM RODRIGO DE MOURA TELLES ARCEBISPO PRIMAZ. Completam o Pórtico pequenos fontes adossadas aos pilares, que no pátio formado é guarnecido de parapeitos em cantaria, e rematados por duas pirâmides. AS CAPELAS VIA-SACRA Transposto o pórtico, deparamos, num pequeno átrio, com as primeiras capelas da Via-Sacra, que se encontra ao longo do escadório que representam o martírio de Jesus, desde a Última Ceia, até ao Golgota. Como o pórtico, estas duas capelas colocadas uma em cada lado são as únicas que restam da intervenção do arcebispo Moura Telles. A do lado direito, “numa imagem do século XVIII, popular e ingénua” diz Alberto Feio, dá-nos a representação do Cenáculo, a Última Ceia, onde preside Jesus, com um resplendor, distribui pelos Apóstolos o Pão, depois de o partir e o cálice, onde se encontra o vinho. Contem dentro de si catorze figuras. Jesus Cristo, sentado numa esplêndida e majestosa mesa debaixo de um precioso docel, instituindo a Eucaristia; os apóstolos, sentados em torno e São Marcos de pé, ministrando a Mesa. No frontespício desta capela. Numa cartela a legenda, que traduzida para vernáculo quer dizer : (2 do c.3) “Estando eles ceando. Tomou o pão … e disse…comei; este é o meu corpo.” Joan.13,2 / Math. 26.26 Em frente desta capela encontramos a cena que representa o episódio do Monte das Oliveiras. Jesus ora, tendo ao seu lado direito, três discípulos e à esquerda um anjo apresenta-lhe o cálice da Amargura. Sobre a porta de entrada outra inscrição explica a cena representada, “Posto em agonia orava com mais instância” Luc. 22.43. Tanto as imagens da Capela do Cenáculo como as do Horto, são da idêntica escola primitiva. Sobre as duas portadas, que são, como já se disse da primitiva reedificação, tem a encimá-las o brasão de fé do arcebispo reedificador. Tem o aspecto diferente das restantes ao longo do escadório. São no formato de um cubo, sobrepujado por uma cobertura em aresta e pirâmide quadrada, tendo cada uma no seu vértice uma esfera. Todo isto de pode confirmar consultando o mapa do século XVIII, inserido neste caderno e respeita o traço inicial de Villa-Lobos . Prosseguindo, por três lanços de escada, vamos encontrar a CAPELA DA PRISÃO DO SENHOR Aqui principia a alteração ao projecto inicial levada a efeito nos meados do século XIX. Para tornar mais cómoda a subida até ao templo, foi alongado o escadório, prolongando a escadaria, ficando menos acentuado o declive e projectando entre os lanços uns pequenos adros, que serviriam de descanso, aqueles que iriam percorrer a Via-Sacra. As capelas originais foram derrubadas e substituídas por outras em formato octogonal, tendo à sua volta, um muro no qual foi aposto encostado a ele, um corrido banco de pedra. O interior desta capela representa a traição de Judas, pelo figura do Redentor recebendo o beijo traiçoeiro. Segundo o Dr. Alberto Feio que vamos seguindo o seu trabalho, o primitivo figurado desapareceu, tendo as actuais figuras sido reformadas pelo escultor bracarense João Evangelista. Aqui pode esclarecer-se que segundo o escritor Ernesto Português, na sua monografia sobre São Salvador de Cambeses, sabe-se do desaparecimento desse figurado dizendo que os mais feios judeus da Via-Sacra do Bom Jesus, foram vendidos a libra cada um para a Via-Sacra do Couto de Cambeses, e diz mais “que olhando a que eram judeus, não tinha sido cara a compra, mas que segundo a sua opinião todos juntos não valiam um carro de canhotas.” A cartela que encima a portada, diz : “Lançaram as mãos a Jesus e o prenderam” Math. 26 .50 Ao lado da capela encontra-se a Fonte de Diana, com os seus respectivos emblemas: mão, flecha e arco. ( 3 do c.3) Prosseguindo no nosso caminhar, encontramos a quarta capela a das T R E V A S A imagem que ali está representada, é devida a Evangelista Vieira. Cristo de olhos vendados, sentado numa pedra, tem os pulsos presos. Como fundo desta cena uma série de edifícios em arcaria. Sobre a portada a inscrição: “ Então uns lhe cuspiram no rosto…. e outros lhe deram bofetadas” Math.26.67. Passando para o exterior, está representada a Fonte de Marte, com os seus atributos guerreiros. A fantasia do artista que a trabalhou, numa acção de criatividade e imaginação, colocou no centro destas armas um PISTOLÃO DE PEDERNEIRA. ///./// ( continua no caderno 4) (4 do cad. 3)


publicado por Varziano às 11:38
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