Sábado, 23 de Agosto de 2008
A Igreja Paroquial de São Vicente (1)

A I G R E J A P A R O Q U I A L D E S Ã O V I C E N T E Partindo da Arcada da Lapa, pelo antigo Largo do Eirado ( Largo de São Francisco ) penetramos na rua dos Chãos ( Chãos de Baixo no mapa de André Soares ), até à Praça Alexandre Herculano ( largo dos Penedos, mapa de 1854 ), onde se toma a estreita rua de São Vicente (Chãos de Cima, no mapa de Soares, acima citado ), até ao adro onde se nos depara a imponente fachada da igreja de São Vicente. O culto a São Vicente é muito antigo, podemos afirmar que vem de tempos anteriores à nacionalidade. Pelo tomo III, do cartulário LIBER FIDEI, Santae Bracarensis Ecclesiae, edição crítica pelo Prof. Doutor Avelino de Jesus Costa temos notícia da sua existência pelo documento nº 655, datado de 1 de Janeiro de 1100, a propósito de uma doação à Sé de Braga, que é menciona: “…damos vel quos abemus in villa Tornários ad radice Castro Máximo inter illa colina et Sancti Vicenti de Infidias.” Quando refere “São Vicente de Infias”, diz respeito a uma primitiva ermida, um pouco desviada do actual templo, muito mais tardio, e situada no lugar de Infias, topónimo que assinalava um local, talvez ermo, a fazermos fé do documento nº 805, do cartulário acima, que nos diz que em 14 de Abril de 1152, o Arcebispo Dom João Peculiar “com assentimento do Cabido, doa aos seus homens Pedro Agistrin e Pedro Canavel um terreno junto a Infias (Braga), em recompensa pelos bons serviços prestados e para que o cultivem e nele edifiquem, pagando anualmente a décima da quinta parte ao prelado e seis moedas da moeda corrente aos seus vigários” : “…facio kartam donnationis et firmitatis vobis hominibus meis Petro Agistrin et Petro Canavel de una senra quam habeo in Penelas et inter illu (d) sautum de Penelas et illam viam que vadi de Infias ad Fontanelo et de aliam partem per illam que vadi ad Sanctum Victorem. Do vobis illam pro servicio bono quod mihi fideliter fecisti et ut eam plantetis et edificetis…” Anos decorridos e como última referência, do citado Liber a Infias, lugar onde se encontrava a primitiva ermida, como acima dizemos, vamos deparar em Novembro de 1216, doc. nº. 884, ao tempo do arcebispo Dom Estêvão, com autorização do Cabido, “escamba com Dom Pôncio, mulher e filhos, o casal de Infias (Braga) com certos direitos que ali tinha, pela quinta e outros bens que eles possuíam em Penegate (conc. de Vila Verde): “…facimus kartan concanbii et perpetue firtmitudis vobis domno Poncio civi Bracarensi et uxori vestre Marie Pelagii et vestir atque nepotibus. Damus itaque vobis illud casale meum de Infias…” È curioso notar que só a partir do segundo documento que a grafia insere o topónimo actual, Infias. A referência, no primeiro documento, Sancti Vicenti de Infidias, está ainda relacionada com a primitiva ermida que, como se disse, não ocupava o actual local da igreja, mas sim um pouco mais a norte. Todo este local era e é conhecido actualmente por Infias. Deve ter sido recolhida nos seus alicerces desta pequena ermida, destruída possivelmente aquando da ocupação do território da Bracara pelas hordas sarracenas, a lápide epigráfica visigótica que se encontra encastoada na parede interior da sacristia, inscrição que tem merecido o estudo e a curiosidade de eminentes investigadores. Pelo que ela nos elucida ficamos a saber que, possivelmente, devido à cristianização do território bracarense pelo Bispo São Martinho de Dume (569/579), arredando os costumes pagãos que então enfermavam a população, passaram a denominar-se os dias de semana com a terminologia tal qual hoje nós usamos e bem assim todos os povos de língua portuguesa. Há anos numa visita guiada com cidadãos judeus que visitaram a cidade, apresentaram estes a informação de que também a religião judaica, tinha eliminado os costumes pagãos o que concordamos, ficando a dúvida a quem se deveria atribuir este modo de mencionar os dias de semana o que, quanto a nós, se pode buscar a origem no facto de a religião judaica e a cristã terem partido da mesma base. Esta notável inscrição que, no dizer de Albano Belino, em “Archeologia Christã”, l900, “é, sem dúvida, o monumento mais antigo do cristianismo em Braga”. Com as medidas de 1,40 m. de comprimento por 0,41 m. de altura foi transcrita na obra citada, na versão portuguesa, como se segue : “Aqui descansa Remistuera, desde o primeiro de Maio de 628, dia de segunda feira, em paz, amen”. Várias são as interpretações, vários são o estudos sobre o nome da defunta, única diferença entre todos, mas entre todos o que é certo é o dia em que desceu à terra, “foi no primeiro de Maio de 618, dia de segunda feira”. Entre os que dão o nome de origem teutónica, está o epigrafista, Padre Fidel Fita, que em 1896, afirmava baseado numa fotografia que Belino lhe enviou: “O nome da defunta é teutónico. O seu primeiro elemento sai do nome de Remisol, bispo de Viseu, que assistiu ao 2º Concílio de Braga (ano de 572), no de Remismundo, rei suevo, e noutros. A fotografia permite conjecturar que o segundo elemento seja MUTERA, por ter algum traço de ligadura de T, com E, em cujo caso vem à memória o alemão MUTTER (mãe)” Sabe-se que os bracarenses no tempo do rei suevo Hermenerico, professavam, livremente, a religião cristã, diz o autor acima citado, de “tal modo a crença se propagou, que no ano de 464 poucos suevos havia que não fizessem parte do grémio da igreja cristã”. Esta veneranda lápide visigótica data de 618, cem anos antes da invasão sarracena e do estabelecimento, em quase toda a península ibérica dos sequazes da religião de Maomé e, como tal seria por si só, um monumento a chamar a nossa atenção e respeito pela antiguidade do lugar onde foi encontrada - Infias. Mas voltemos à lápide. Como dissemos, encontrada nas ruínas da antiga ermida, tem sido objecto de múltiplas investigações. Vários especialistas sobre ele se debruçaram. Dos citados Padre Fidel Fita e Albano Belino, no século XIX, e ainda temos o estudo do Prof. Doutor Cónego Avelino de Jesus Costa, êste que tendo feito uma análise in loco nos dá uma interpretação bastante convincente. Para melhor elucidação, achamos que será bom reproduzir o texto gravado na sua grafia latina, segundo a leitura de Avelino de Jesus Costa: “HIC REQVIESCIT REMISNVERA IN KAL MAIS ERA DC QVINGAGIS VI DIE SECVNDA FERIA IN PACE-AMEN”. Quanto ao nome da defunta, como sendo o de REMISNUERA e não Remistuera, como querem alguns, diz Avelino de Jesus Costa, que a sua leitura feita directamente no local e não pretendendo impor como a mais correcta, informa em sua opinião que o nome é REMISNVERA e não Remistvera. Para isso apresenta razões aceitáveis. A sua versão em vernáculo diz: “Aqui repousa em paz Remisnuera ( no dia 1 de Maio) dia de segunda-feira, da era DCLVI ( ano de 618) Ámen. OUTRAS INSCRIÇÕES Mais quatro inscrições se encontram, mas estas no adro da igreja e na fachada. Na fachada, em duas cartelas colocadas aos lados da entrada principal, ficasse a saber por uma que na era do Senhor do ano de 656, foi dedicada naquele local ou por perto um templo dedicado ao mártir Sai Vicente, qual seria o acima mencionado no Liber Fidei. A esta lápide epigráfica faz referência, Azevedo Coutinho, no guia “Guia do Viajante em Braga”, publicado em 1874, e que a páginas 48/9, diz: “Data da antiga era de 656 a existência de um templo dedicado ao Mártir São Vicente”, informando-nos também do mesmo, Albano Belino, in “Inscrições e Letreiros da cidade de Braga” e em “Archeologia Christã”, editados no final do século XIX, como também não o deixou de assinalar Senna Freitas, em “Memórias de Braga”. Desse primitivo templo, como já dissemos, nada resta e, por outra inscrição, ficamos a saber que entre o actual e o primeiro templo, houve um segundo, como reza a inscrição gravada na cartela do lado direito, estando voltados para a porta principal, que tem os dizeres : AQVI SE GANHAM COPI OSAS INDULGÊNCIAS VI SITANDO ESTA CAPELA DEDICADA A S. VICENTE NA ERA DO SENHOR DCLVI REEDIFICADA EM MDLXVI E TERCEDIRA VEZ FUNDADA 1691 A actual fachada, que data desta última reconstrução, exuberantemente trabalhada, apresenta ainda traçado maneirista, mas já numa transição para o

 

(Continua...)

 

Braga, 1 de Fevereiro de 2008

Luís Costa

 

(1) Tesouros Artísticos de Portugal – Edi. S.R.D. pag. 32

(2) Albano Belino – Archeologia Christã, pag. 191

(3) Discours Premilinaires, ou Tableau de L’Histoire de Églisé, pg. 432 (1758)

(4) Nóbrega, Artur Vaz-Osório- Pedras de Armas e Armas Tumulares do Distrito de Braga – cidade.

(5) Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, 2ª série nº 2, pag. 5

 



publicado por Varziano às 11:29
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

27
28
29
30
31


posts recentes

consequencias da 2ª g.Gue...

Bom Jesus 1

Bom Jesus 2

Bom Jesus 3

Bom Jesus 4

Bom Jesus 5

Bom Jesus 6

Bom Jesus 7

Bom Jesus 8

Bom Jesus 9

arquivos

Maio 2013

Dezembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds