Sábado, 23 de Agosto de 2008
A Igreja Paroquial de Sao Vicente (2)

barroco. Assim “sobre o traçado maneirista ( frontaria lisa sem avanços ), foram sobrepostos elementos (grinaldas, volutas, laçaria de rolwerk, enrolamentos) copiados da talha de madeira”. (1) Isto é, segundo a obra citada, um pronuncio do barroco está delineado no cimo da fachada onde nos aparecem ao lado das volutas que envolvem o padroeiro, os coruchéus, os abundantes ornatos, de linhas sinuosas, o frontão interrompido, numa quebra de monotonia de uma fachada direita, característica de que serviu o estilo, barroco, importado por gravuras que chegaram até Portugal, vindas do centro da Europa e que em Braga teve o seu expoente máximo através dos mestres do barroco, André Soares e Marceliano de Araújo e, no Porto, Nicolau Nazonni. Albano Belino diz que “ a fachada, de escultura trabalhosa, remata com a estátua de São Vicente, dentro de um nicho encimado pela cruz pontifical “(três braços).(2) Colocado quase numa das entradas da cidade, este templo tem provocado o interesse dos turistas não só pela sua rica fachada mas também pela riqueza do seu interior, de que nos ocuparemos mais à frente. Ao lado esquerdo da portada principal, outra inscrição chama a nossa atenção. Numa cartela belamente emoldurada, por grinaldas e laçaria, como a outra, pode ler-se: MEMBRO DA SACROSSANTA IGREJA LATERANENSE DE CVIOS PRIVILÉGIOS GOZA COM OBRIGAÇAM DE DUAS LIBRAS DE CERA PAGAS EM ROMA CADA ANO DESDE A ERA de 1598. Refere a inscrição desta lápide, a uma outra que está embebida na parede do interior da sacristia, na qual dá conta de que esta igreja de São Vicente goza de privilégios e indulgências da Igreja de Latrão, em Roma. Por ser difícil a sua transcrição para caracteres tipográficos, dá-se porém, a sua leitura : INSIGNIA DA SÉ LATERANENSE CUJAS INDULGÊNCIAS GOSA ESTA CAPELA Foram estes privilégios e indulgências obtidos quando ocupava a Cátedra de Roma, cabeça da Cristandade, o Papa Clemente VIII (3) e era Arcebispo de Braga, D. Frei. Agostinho de Jesus (Castro). Quanto à lápide suevo-visigótica, já fizemos referência e, como tal não voltamos a mencioná-la. Continuando com a descrição da fachada diremos que a Porta Principal é ladeada por duas ombreiras que sustentam uma arquitrave, sobre o colocado um frontão barroco interrompido que tem a encimá-lo, numa profusão de laçaria e concheado que se enlaça, a representação do baptismo de Cristo no Jordão a que se sobrepõe a Pomba do Espírito Santo: “Escudo ovalado, com motivos decorativos, sustentado por dois anjos e encimado também por dois anjos que amparam uma tiara”. De cada lado e por cima das cartelas maneiristas, dois bem rasgados janelões, emoldurados também por laçaria, dão luz ao interior do templo. Sob a cornija, corre uma arquitrave com seis elementos canelados ( três de cada lado ) com pendentes. Ao centro uma composição, relevada, destaca-se o figurado de uma grande folha de acanto que encima o motivo do baptismo. Rematando todo êste notável conjunto, nos cunhais, estão colocados dois anjos sobre acrotérios, ( um de cada lado ), empunhando, cada, uma flâmula. A ligação com o motivo central onde se acha o nicho do Santo Padroeiro, faz-se através de volutas. A estátua de São Vicente, em veste sacerdotais, no nicho e sobre um acrotério, tem sobre a cabeça o resplendor e segura na mão esquerda um barca na qual está pousado um corvo ( alusão à defesa do corpo de São Vicente por corvos e, na direita a palma do martírio. Todo este conjunto é ladeado por coruchéus ou pináculos, volutas, laçaria e grinaldas, num bom desenho que tem a rematá-lo ao centro e ao alto, como já se disse, a cruz de três tramos. Ainda e sobre o nicho que alberga a representação do patrono, dois anjos seguram as insígnias Pontificais : “duas chaves de S. Pedro passadas em aspa encimadas pela tiara e com uma cruz de três travessas, postas em pala por detrás das chaves e passadas por dentro da tiara.”(4) NO INTERIOR DO TEMPLO Todo o interior do templo é da uma riqueza extraordinária. Não se pode destacar um único pormenor. Tudo o que encerra é digno de destaque desde os painéis de azulejaria, passando pela talha dourada dos seus altares, pelo órgão, pelos sanefas e pelas suas imagens é difícil a escolha, tudo é muito bom. Principiemos pela azulejaria. Podemos dividir em duas épocas o seu fabrico. Dois processos da arte do azulejo estão patentes. Duas épocas distintas se afirmam. Os painéis do altar-mor, são sem dúvida do final do século VXII ou princípios do seguinte. Aqui se nota bem a diferença de fabrico. O colorido das suas peças, a imperfeição do seu desenho, em tudo são diferentes dos do corpo da igreja. A característica do século dezassete é bem patente na escolha das cores usadas – ocre, azul e branco. Enquanto que, nos do corpo da igreja, a tonalidade é apenas distinguida entre o azul e branco, eis a diferença principal mas, de resto não é única. Nestes a perfeição do desenho é superior. Nota-se à vista desarmada que são muito mais perfeitos, as cores mais intensas, o azul mais brilhante, mais cuidado na representação pictórica. São de fabrico de uma cerâmica de Gaia. Já em tempos o tínhamos afirmado que, eram sem dúvida, dos finais do século dezanove. Desfizemos a crença de que eram anteriores a este século e, baseamos a nossa afirmação num dos painéis que mostravam a fachada da Sé de Braga como ela é hoje e em outros elementos, como o desenho para guiar a colocação das peças. Sabíamos que essa representação da fachada da Igreja Maior de Braga, só se mostra, como agora, desde os últimos anos do século dezoito. Nada até há pouco confirmava, sem rebuço, a sua datação e fabrico até que um investigador encontrou, recentemente, devidamente documentada a data do fabrico e o local onde foi executado o trabalho – Vila Nova de Gaia e no último quarteirão do século dezanove. O S P A I N É I S DE AZULEJO Como dissemos, um dos mais importantes motivos desta igreja são os painéis de azulejaria que ornamentam o seu interior, recobrindo-lhe totalmente as paredes, relatando vários passos da vida e martírio do Santo Patrono, podem dividir-se em duas partes. A primeira, os azulejos do altar-mor, dá-nos a representação, antes do seu martírio e, a segunda, no corpo da igreja, a prisão, martírio, morte e trasladação das suas relíquias. Assim, principiemos pelo altar-mor. No lado direito vê-se, segundo a legenda que se trata da entrega de um livro por seu pai a Vicente. Reza ela o seguinte : “EVTIQVIO PAI DE S. VICENTE DANDO-LHE UM LIVRO PARA ESTUDAR”. A seguir outro painel diz : “S. VICENTE PRESO E PROSVIDDIDO (?) A QUE ADORE AHU RETARIO DE DIOCLECIANO O REPVN” que julgamos querer dizer “S. Vicente, preso é obrigado a adorar um retrato de Deocleciano, o repudiou”. Por cima deste e no mesmo lado é representado um quadro em que se nota se nota, talvez, o martírio. Sob este painel, de onde caíram alguns azulejos ( e mais alguns ameaçam cair ) a legenda está incompleta, pois inutilizaram-se os caídos e apenas se pode as letras “SENTE”. No lado esquerdo e na parte de cima de um grande painel. Nota-se um grupo de soldados despindo São Vicente para o levar para o martírio. A legenda diz : “TIRANDO A DALMÁCIA E VESTIDURAS A SÃO VICENTE O LEVAM Pª O MARTÍRIO” No canto inferior está um outro em que se vê São Valério e São Vicente e de cuja legenda se conclui o seguinte: “S. VALÉRIO BISPO ORDENADO DE EVANGELHOS LANÇANDO--LHE A DALMÁCIA SOBRE SÃO VICENTE” No corpo principal ( no qual se nota uma ortografia mais recente, ortografia do século XIX ) e no lado esquerdo, parte superior, o corpo de São Vicente, protegido por um corvo do assalto a ferocidade de um lobo. A legenda ; “ O CORPO DE SÃO VICENTE É DEFENDIDO POR UM CORVO” Na parte inferior deste mesmo lado, vê-se de novo um grupo de soldados e entre eles presos S. Valério e S. Vicente, estando assinalado o facto na legenda: “SÃO VICENTE E SÃO VALÉRIO PRESOS PARA VALÊNCIA POR ORDEM DE DACIANO” Quase encobertos por um confessionário, podem ver-se dois pequenos painéis em que num se mostra uma cidade e que segundo o que lá está escrito se refere a :

 

(Continua...)

 

Braga, 1 de Fevereiro de 2008

Luís Costa

 

(1) Tesouros Artísticos de Portugal – Edi. S.R.D. pag. 32

(2) Albano Belino – Archeologia Christã, pag. 191

(3) Discours Premilinaires, ou Tableau de L’Histoire de Églisé, pg. 432 (1758)

(4) Nóbrega, Artur Vaz-Osório- Pedras de Armas e Armas Tumulares do Distrito de Braga – cidade.

(5) Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, 2ª série nº 2, pag. 5

 



publicado por Varziano às 11:35
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