Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
Praça do Bocage
PRAÇA DO BOCAGE Situada na urbanização da Quinta dos Congregados, Enguardas, a praça do Bocage, é o remate da rua Padre António Vieira. O seu nome foi-lhe atribuído em sessão camarária de 1 de Março de 1990. Manuel Maria Barbosa du Bocage, está assim perpetuado num arruamento da nova Braga. Procurando a origem da palavra Bocage, deparamos que ela se refere a “várias regiões da França, em que a paisagem característica é formada por campos e pradarias cercadas por sebes espessas”.(1) Nasceu Bocage, na então vila de Setúbal em 15 de Setembro de 1765 e vindo a falecer em Lisboa 21 de Dezembro de 1805. De ascendia francesa por parte de sua mãe, filha de Gil ou Gillet Hedois du Bocage, que tinha vindo para Lisboa, em 1704, integrado na esquadra gaulesa que se reuniu às tropas portuguesas na guerra contra a Espanha, que terminou em 1713, com o tratado de Utreque. Hedois du Bocage, ficou em Portugal e aqui constitui família. Casou em 1720, com D. Clara Francisca de Lestof, filha de um rico proprietário holandês. Deste matrimónio nasceu D. Mariana Joaquina Xavier du Bocage, aquela que viria a ser a mãe de Bocage. Foi um poeta lírico, e um dos maiores do idioma português. Sonetista de rara perfeição, na “sua vida boémia e desregrada, esbanjou o seu talento em improvisações satíricas e espirituosas, aspecto sobre o qual é mais popularmente conhecido”.(1) Chegou até nós, um soneto, dos seus tempos passado na Índia, em que “se ergue a alvejar, com aguçadas frecha empeçonhadas de rancor, as pessoas e os costumes que o cercam”(3) “Tu, Goa, in illo tempore cidade, Sempre tens habitantes de bom lote! Não receiam que a cor se lhes desbote, Privilégio da mista qualidade. Nenhum há que não conte e sem vaidade, Que seu primeiro avô, brutal Queixote! Dera ao padre Adão com um chicote Por lhe haver disputado antiguidade. Diz-nos esta república de loucos Que o cofre de Marata é ninharia. Que do Grão Turco os réditos são poucos. Mas, em casando as filhas, quem diria Que o dote consiste em quatro cocos, Um cofre, dez bajus (4), e a senhoria Por vezes, procurava a piada: Pergunta certa senhora Sem presumir mal algum, Se um beijo à sexta-feira Fará perder o jejum? Mas Bocage, nem sempre era sarcástico nos seus versos. Algumas vezes lhe tocava a veia sentimental. Temos disso exemplo, quando amargamente chorou uma sua amada Arnada : “Voaste, alma inocente, alma querida, Foste ver outro sol de luz mais pura; Falsos bens desta vida que não dura, Trocaste pelos bens da eterna vida. Segundo o dicionário mencionado foi acusado de dissoluto, e por professar ideias que feriam o reaccionarismo ambiente, isto é, o sistema político que pretende reviver ou manter o passado, opondo-se a qualquer avanço ou modificação social,(2) foi preso, recolhendo aos cárceres do Limoeiro, às prisões do Santo Ofício e, finalmente, ao Hospício das Necessidades. Pertenceu à Nova Arcádia, onde tomou o criptônimo de Elmano Sadino. De entre a sua numerosa produção literária podemos destacar “Rimas” (1791), “Obras Completas”, oito volumes editados entre 1875-1876, “Poesias eróticas, burlescas e satíricas”,”Verdades Duas”, e outros títulos mais que seria enfastioso enumerar. Mário Domingues, na badana da capa da obra atrás citada diz: “Durante muitos anos, o “poeta Bocage” só era conhecido pelo povo como figura grotesca, a quem se atribuíam as situações mais ridículas e de quem se contavam asquerosas anedotas, puras invenções de mau gosto, que deformavam por completo a personalidade de Manuel Maria Barbosa du Bocage, o arcádio Elmano Sadino, sem dívida, depois de Camões, o maior poeta português surgido no seu tempo. Tal opinião acerca deste homem de génio, que merece a admiração de todos que conhecem o valor social e humano da poesia na vida dos povos, constituía uma triste demonstração do baixo nível em que se encontrava, e em grande parte ainda se encontra, a mentalidade portuguesa… Vida angustiosa, tão atormentada de desventuras, perseguições e ódios, em que mais se salientou o intendente Pina Manique, não admira que só tivesse resistido quarenta anos. De admirar, sim, é ter realizado neste curto lapso de tempo obra tão vasta e portentosa.” A sua vida, os seus amores, as suas aventuras tem sido aproveitada por alguns escritores portugueses, como Mário Domingues, no citado “Bocage, a sua vida e a sua época” Também Rocha Martins apresentou no século passado, em dois grossos volumes, provavelmente romanceada, a obra “Bocage”. A arte cinematográfica, também se interessou pela sua romanesca vida. Em 1936, o cineasta Leitão de Barros, apresentou um filme sonoro baseado na vida de Bocage. A figura do Elmano Sadino foi interpretada por Raul de Carvalho. Desse anos já longínquos ainda nos ficou, na nossa mente, parte da marcha dos Marinheiros : “ A navegar desde Goa, nós viemos a pensar nas meninas de Lisboa! Deita o arpão, sem saber se é linda ou feia. Umas vezes vem peixão Outras vezes, Vem baleia !. Isto era no tempo em que os filmes portugueses, viviam à custa da música, das canções que perduravam, da alegria, antídoto para combater os males que afligiam algum do povo português – dai-lhe música e cantigas, foguetes e bombos, e logo ele ficará contente. Mas o que é certo é que ainda hoje gostaríamos de voltar a ver o “Bocage” de Leitão de Barros, com Raul de Carvalho. Braga, 8 de Fevereiro de 2008 LUÍS COSTA (1) DICIONÁRIO LAROUSE -Reader’s – 2º vol. Pag. 1039. (2) Dicionário Editora (3) DOMINGUES – Mário – Bocage, a sua vida e a sua época. pag. 99 (4) Bajus, espécie de roupão de mangas curtas


publicado por Varziano às 15:47
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

27
28
29
30
31


posts recentes

consequencias da 2ª g.Gue...

Bom Jesus 1

Bom Jesus 2

Bom Jesus 3

Bom Jesus 4

Bom Jesus 5

Bom Jesus 6

Bom Jesus 7

Bom Jesus 8

Bom Jesus 9

arquivos

Maio 2013

Dezembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds