Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
Similitude entre duas lendas
A SIMILITUDE ENTRE DUAS LENDAS UMA GALEGA E OUTRA BRACARENSE No artigo sobre o RECANTO DE BRAGA, Largo de Infias, publicado em l de Setembro de 2006, no jornal “O Correio do Minho”, fiz referência a uma lenda que recaía sobre a CASA DE VALE FLORES., lenda terrifica, que por deixar em suspenso alguns leitores, dou hoje à estampa na certeza de que assim ficarão de posse do seu conhecimento. 3/09/06. L. C. . . . . . . Como sabemos é notória a aproximação entre as línguas galegas e portuguesa, havendo até quem afirme que o galego, pela quase ou mesmo obrigação de uma uniformidade do espanhol, como língua oficial não evoluiu, conservando-se assim mais próxima do português arcaico. Mas não só a língua nos aproxima do “nuestros hermanos” da Galiza - para os portugueses uma continuação de Portugal para o Cantábrico e para os galegos, uma continuação da Galiza para o Sul. Também os costumes, a cultura, as lendas, os contos, as crenças, são, por vezes com leves alterações, quase idênticas. E a isso cheguei graças à conclusão através de umas traduções que por mero entretenimento estou a fazer, agora que as horas vagas são muitas e esta é uma das melhores maneiras de passar o tempo que me vai sobrando, ao mesmo tempo que vou aprendendo mais alguma coisa já que “se aprende até morrer e morre-se sem saber”. Há pouco li e traduzi, do que levei ao conhecimento dos meus fiéis leitores, se é que os tenho, do culto a Santo André no Noroeste da Península, no caso entre o de Santo André da freguesia poveira de Aguçadoura e o culto ao mesmo Santo, em Teixedo, em direcção cabo Ortegal; e em outros fascículos do jornal Faro de Vigo, encontrei mais costumes, semelhantes aos processados neste nosso Minho como o rito dos banhos santos das ondas na praia de Lanzada, perto de Sansenxo, e o mesmo rito em São Bartolomeu do Mar, em Esposende; a “coca” de Monção e o festejo em Redondela. E agora, no referente à Virgem de Cristal, de novo me apareça uma lenda, muito semelhante, em certos casos, a uma que ouvi da boca da Senhora Dona Maria Henriqueta de Sousa, senhora da Casa de Vale Flores, em Infias, desta nossa cidade. É a lenda da língua, que tanto do lado de cá do Minho, como do lado do rio que nos separa, apesar do canto de João Verde “eternos namorados”, tem a mesma origem – calúnia e insídias de quem é rejeitado nos amores – e que tem quase o mesmo trágico fim. Enquanto a que nos contou a ilustre senhora e que dizem ocorreu em Vale Flores, o final é consumado pelo difamador que se suicida, na que vem narrada na “Virgem de Cristal”, o caluniador morre às mãos do ciumento namorado. Mas o instrumento que levou um e outro à morte, foi o mesmo – a língua difamadora. Mas vamos às lendas que o intróito já vai longo e, por certo talvez haja quem queira saber o desenrolar dos factos e de “lenga lenga” já estão cheios. Principiemos pela braguesa. Em tempos que lá vão em que a ida para as Índias servia para angariar grossos cabedais e até também para afogar paixões não correspondidas, na Casa de Vale Flores, vivia uma formosa jovem, dezasseis ou dezassete anos de encanto que trazia “pelo beicinho” uma nobre rapaziada. Entre eles um mais apaixonado e familiar, fazia o seu “rapa pés” à elegante mocinha. Ela, ou porque o seu coração já tinha seguido outro rumo, ou porque ainda se achava muito nova para se perder de amores, deu-lhe, como se diz hoje, com “a tampa”. Ele não desistia e sempre que podia lá estava inquietá-la. Tantas vezes “vai o cântaro à fonte” que certo dia, o despeitado teve que desistir, não sem antes arquitectar uma torpe vingança. Já que não conseguia obter os seus fins, resolveu difamá-la. Nesses tempos uma pequena a quem tivesse sido atribuído tal anátema só tinha dois caminhos – ou refugiava-se num convento ou recolhia-se em casa, sem dela sair, como tendo morrido para o mundo. O segundo foi o escolhido e assim aquela santa menina viveu quase toda a sua vida, rezando na Capela da Senhora do Pilar, anexa à casa, e perdoando ao seu difamador. Certo dia o então enamorado, já velho, gasto pelo remorso, consumido pelo desgosto e entorpecido regressa das Índias. Passa por Braga e entra na Sé, onde confessa a um velho sacerdote a sua acção e o seu arrependimento. Como remissão recebe o conselho do venerando ministro do culto, que deveria velar, durante uma noite, o primeiro cadáver que encontrasse no seu caminho. Ao passar por Infias, reparou que o brasão da casa de Vale Flores, estava coberto de luto. Sem se dar a conhecer quis saber qual a razão do luto. Um dos criados informou-o que uma santa senhora, que desde menina nunca saiu de casa, passando os dias na Capela da casa, procurando refúgio para a sua desdita na oração e contemplação da Imagem de Cristo, tinha terminado os seus dias amargos por mais de umas dezenas de anos. Compreendeu naquele instante que tinha sido ele a causa de tanta amargura, e como tinha de cumprir, para seu alento, com o determinado na confissão, fez-se passar por um peregrino da Terra Santa e ao templo do Apóstolo Santiago, oferecendo-se para velar, naquela noite, tão santo cadáver. Os donos da casa nada objectaram e na manhã seguinte ao raiar da aurora quando se dirigem à Capela para os ofícios fúnebres deparam com o horrível espectáculo de sobre o corpo da infeliz criatura, estava o corpo morto do peregrino, ostentando na mão, no gesto de entrega à defunta, a língua que tinha arrancado e numa das paredes escrita a sangue, a frase : “COM ELA TE DIFAMEI E POR ELA ME MATEI” . Ora, na versão galega da lenda da língua, o final é apenas diferente. Nesta o difamador não se mata, mas sim morre, como já disse, às mãos seu oponente, Martinho. Em Vilanova, na Galiza, havia um castelo com esbelta torre, do senhorio por volta de 1630, do grande senhor Jácome Mascarenhas. Tinha ao serviço uma esbelta moça de seu nome Rosa e também um trabalhador rural de belo aspecto, Martinho. Entre os dois, ambos órfãos, estabeleceu-se uma certa amizade que resultou na promessa de noivado, mas da formosa rapariga também estava enamorado o malicioso e brigão João de Ventrances, que ao ver-se repudiado, também, como no caso braguês, arquitectou uma torpe vingança – difamou-a alegando outros amores além de Martinho e até com o castelão Senhor de quem dependiam. Desgostoso, Martinho, renega-a, apesar dos constantes desmentidos de Rosa, que chega a afirmar a sua virtude : Cristal nunca viche que a minha igualara”. Na tristeza do seu abandono, a infeliz rapariga tem uma visão extraordinária. Aparece-lhe a Virgem, vestida ao modo galego e lhe diz : “Rosinha, a Virgem Maria trás consolo e favor”. Decorrido algum tempo, o infeliz enamorado, convenceu-se da insídia do seu concorrente Xan e logo se compromete a uma vingança : “ Juro a Deus, Xan de Ventrances, que de te hei-de arrancar a língua”. Procura o caluniador e ameaça que tem de se desmentir, quando não cumpriria o juramento. Entretanto o moço continuou com os seus trabalhos e um dia, em pleno monte desencadeia-se uma terrível borrasca. Abriga-se num tronco oco, e entretanto vai pensando na expressão de Rosa: “pura como um cristal”, e nesse instante um raio fulmina o tronco, caindo desfalecido o herói desta lenda. Ao recobrar do susto, reparou numa pedra brilhante, como ovo de galinha, talhada em fino cristal, e dentro dela uma pequena imagem da Virgem, não achando razão de que como poderia ali entrar, pois não tinha qualquer abertura. Consultados várias pessoas entendidas, incluindo clérigos que acham que só por um prodígio divino aquela Virgem – a mais pequena do mundo – estaria ali. Rosa ao ver a imagem, ficou surpresa pois viu que era a mesma da sua visão. Martinho, quis à viva força retomar o seu amor perdido mas, isso era impossível, porque Rosa tinha tomado a decisão de ingressar num convento de clarissas, em Allariz. CUMPRIU O MOÇO O SEU JURAMENTO,´ E UMA LÍNGUA HUMANA APARECEU NUMA ESTACA. O agressor não se descobre, porque a vítima agonizante, não tem voz para o declarar. Martinho, meio fugido, temeroso da justiça, corre até ao convento, durante dias e meses a fio, na esperança de ver, pelo menos através das grades da cela de Rosa, o seu perfil. Manteve-se por verão e inverno no posto de vigia, sem nunca a poder vislumbrar. O poeta Curros Enríquez, num sugestivo verso, remata assim : “…sem conhecer que as meninas que a vida a Cristo lhe oferecem, deixam à porta os amores quando no claustro se metem.” Um inverno rigoroso não o afastou dia e noite, e enquanto a neve mansamente caía, como diz o poeta Curros : “Sobre o seu corpito morto, quietas, quietamente, iam caindo…, caindo… as folhecas de neve”. Martinho deixou-nos esta lenda, de uma alma destroçada. Obs. Seguimos em parte “O Faro de Vigo” fac.43 -1993 Braga, l de Novembro de 2005 LUIS COSTA Email : luisdiasdacosta@clix.pt Visite : bragamonumental.blogs.sapo.pt


publicado por Varziano às 15:28
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