Domingo, 26 de Outubro de 2008
A arcada da Lapa 2
A arcada da Lapa 2 – continuação Tendo sido demolida em 1768, a pedido dos Oratorianos, a Capela de Santa Ana, na Alameda deste nome, a Irmandade do Senhor dos Passos, ali instituída, mudou para a Lapa e numa das torres do Castelo, levantaram sobre um baluarte uma torre sineira que é a que ainda hoje se vê. Entre os alicerces e a parte do fundo onde assentou a torre, serve hoje de caixa forte à dependência bancária, instalada à ilharga da capela. De arquitectura circular, com projecções rectangulares para a entrada e o altar-mor, a capela tem os janelões norte e sul, na circunferência, encobertos pela construção mais tardia do andar superior dos lados da arcada. A arquitectura desta foi uma nova maneira de construção de templos e que, em Braga, está também representada na Capela de Guadalupe e Igreja do Hospital de São Marcos. Circular era a igreja do Bom Jesus, mandada construir por Dom Rodrigo de Moura Telles. O seu risco é atribuído a André Soares, e se facto foi ele o seu autor, foi quase no final da sua actividade, pois faleceu em Braga, em 26 de Novembro de 1769. Robert C. Smith afirma que há toda a probabilidade de ser um trabalho de Soares. Para isso contribui não só a data do inicio da sua construção mas também e, principalmente, a semelhança, no traço com outras obras deste arquitecto bracarense. De facto vários aspectos nos remetem para essas obras, como por exemplo as altas janelas da fachada que nos lembram as da fachada traseira do edifício camarário que iluminam o patamar e os dois lances de escada de acesso ao Salão Nobre e o frontão, encimado por dois coruchéus flamejantes em cada lado, com o acrotério e ao centro coroado pela cruz arcebispal, elementos que nos aparecem na igreja dos Congregados. Por cima do janelão central da fachada, numa cartela entre as pilastras interiores, estão relevadas as armas de fé do príncipe-arcebispo Dom Gaspar de Bragança. Três arcos, sendo o central mais avantajado dão entrada ao átrio que dá acesso ao pequeno templo. Em dois nichos estão representados, São Pedro e o Papa da Eucaristia. No interior além da imagem de Nossa Senhora da Lapa, no altar-mor, estão outras esculturas de Santos, sendo de destacar uma colocada numa mísula e que se refere ao São Carlos Borromeu, o Santo patrono dos bancários. São Carlos Borromeu, foi o administrador financeiro do Concílio de Trento. Quando se procedeu à construção da capela e para utilizar o espaço para o altar-mor, houve necessidade de cortar a passagem que ligava os dois baluartes, pelo que se algum vestígio ainda existe, estão por detrás do altar principal da capela. Depois de 1761, como se disse ano em que se lançou a pedra fundamental, o aspecto da arcada dessa data, como se pode verificar pela gravura que neste caderno se insere, manteve-se até ao princípio do último cartel do século dezanove, data em que a Câmara de Braga, intimou ou sugeriu aos locatários daquele espaço, construíssem, sobre os arcos, um andar. Por uma fotografia focada no ano em que se comemorava o primeiro centenário do lançamento da primeira pedra para o templo do Bom Jesus – 1884 – vemos que as obras já estão em fase adiantada. A arcada manteve-se durante muitos e dilatados anos, como um lugar de comércio, quase uma feira. Ali foi a Praça do Peixe, até que esta passou para o Campo da Feira, onde chegou a ser, nos nossos dias, o quartel do Bombeiros Municipais de Braga. A afluência das mercadoras do peixe era tão grande que a Câmara viu-se obrigada a lançar uma postura, ordenando que as vendedoras deviam deixar um corredor, que pela medida de agora, devia andar por um metro, para que os compradores tivessem acesso fácil às vendeiras. Chegou a haver também uma postura impondo determinadas disposições para a venda da sardinha galega teria que ser vendida em competição com a da Póvoa. Estas peixeiras costumavam reunir-se, no final das tardes, nos degraus do cruzeiro do Eirado (que se vê na gravura da arcada antes da intervenção de Dom Rodrigo) e ali em alegre cavaqueira, à qual por certo não faltaria a má língua, o que levou à intervenção do arcebispo para acabar com o escândalo, derrubando-o e tendo sido levado para o cemitério de Monte de Arcos, onde veio a ser aproveitado e em parte modificado para ser colocado no talhão dos Combatentes da Primeira Grande Guerra. Nota-se nesta gravura a seguir à casa redonda, e em parte encoberto pelo cruzeiro, um edifício. Tratava-se da Cadeia da Relação, um estabelecimento destinado a prisão de delinquentes, mandado construir por Dom Rodrigo, sob risco do seu arquitecto Engenheiro Manuel Pinto Vila-lobos (o mesmo arquitecto do Bom Jesus), mais tarde demolido e junto surgiu, em 1856, um depósito de água das Sete Fontes, abastecido pela caixa de águas, do Eirado e fontanário de duas bicas que ainda em meados da primeira metade do século XX, fornecia água. Depôs da transferência do mercado do Peixe, para o largo da Feira, e consequente abandono da parte comercial que se praticava na arcada, limpo o terreno, surgiram os cafés na zona. Temos conhecimento de que pelo menos, à volta da arcada, e isto já em 1906, existiam por ali seis cafés. Necessariamente não era só na arcada, mas por todo o quarteirão. Chegou aos nossos dias um dos mais emblemáticos, o Café Viana. O falecido amigo Dr. Victor Sá, encontrou referências a este estabelecimento pelos princípios dos anos de 1870. Sabe-se pelas actas camarárias que Viana, um dos locatários do espaço, foi um dos aconselhados pela Câmara a acrescentar o andar cimeiro. Talvez tenha sido por altura dos princípios do século XX que o concessionário do café pediu autorização para a abertura de uma porta na muralha e ocupação de um espaço de terreno na antiga cerca do castelo o que foi concedido mediante o pagamento de um foro, ou uma contribuição à Câmara, num contrato renovado ao fim de determinados anos. Um jornal da década de 70 do ano de 1870, inclui um anúncio informando os clientes do Café Viana que devido a várias conjecturas, a gerência via-se obrigada e elevar o preço da chávena de café, num ou dois reis, ao mesmo tempo que anunciava ter recebido uma sorte de bolachas inglesas que estavam à venda por um preço económico. Por aqui passaram várias celebridades da cultura portuguesa como Camilo Castello Branco que, numa carta dirigida ao seu amigo Viana lhe pedia alugasse um quarto no Hotel Franqueira, voltado para o Campo de Santa Ana, mas que tivesse duas camas – uma de ferro e outra de pau – porque às vezes tinha manias de mulher e tinha de mudar de leito. Este café foi um dos estabelecimentos bracarenses que no final da Primeira Grande Guerra, devido à falta de cobre para trocos miúdos, imprimiu cédulas com o valor de fiduciário que corriam como dinheiro. Era ao mesmo tempo café-concerto com orquestra e bailarinas, de resto não o único em Braga antes da regulamentação do jogo de fortuna e azar, grupos de variedades que eram aguentados pelas receitas do jogo. Perdurou e perdura este café até hoje, e lá está, firme como uma rocha, mas sem orquestra ou bailarinas espanholas. Atravessou momentos críticos durante o período do Estado Novo, por ser considerado um café do “reviralho”. De facto era um local onde se encontravam muitos daqueles que se opunham ao regime de então. Mas a sua principal clientela, pelo menos entre os anos de 40 a 74, eram negociantes, empresários de obras e muitos e muitos outros que não alinhavam com a chamada União Nacional. Hoje, completamente remodelado, serve uma clientela diversificada tanto nas suas instalações interiores, como na explanada que o defronta. Não podemos esquecer o Café Astória que era e creio que ainda é o local de encontro da malta estudantil. Outros desapareceram como o Peninsular, misto de café e restaurante, agora transformado numa agência bancária. Um que também levou sumisso e que nenhum de nós deve se lembrar, foi o Café Faria. Esta é uma pequena história daquilo que é considerada como A SALA DE VISITAS DA CIDADE DE BRAGA Braga, 26 de Outubro de 2008 LUÍS COSTA www: bragamonumental.blogs.sapo.pt www: bragamonumental2.blogs.sapo.pt www: varziano.blogs.sapo.pt email: luisdiasdacosta@clix.pt


publicado por Varziano às 11:54
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