Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Os expostos
LUIS COSTA O S E X P O S T O S AS CASAS DA RODA DE BRAGA No Campo de Touros em parte do que foi depois o Edifício do Paço de Dom José (Arquivo Distrital de Braga) Ainda no Campo de Touros, por perto do que foi Edifício dos Órfãos de São Caetano Finalmente na rua de São João do Souto no Casa dos Paiva Marinho UBATI –Universidade Bracarense do Autodidacta e da Terceira Idade 2008 AS CASAS DA RODA DE BRAGA ORFÃOS E EXPOSTOS Por certo para grande parte dos bracarenses, ao falarmos da Casa da Roda, todos aliam a sua localização no edifício da rua de São João do Souto e com razão, pois não há nem poderia existir alguém na cidade que se possa lembrar doutro local onde se recolhiam essas crianças, exposta ou órfãs. O actual edifício que foi o último a receber esses quase, senão mesmo muitas vezes, desprezados da sociedade quem os gerou. Mas vamos por hoje recuar uns centos de anos, e até milénios. Podemos pensar que o abandono de entes, quase que logo à nascença, é uma coisa que vem de muito longe. Uns para encobrir maternidade ou paternidade; outros, eram entregues incógnitos, que por dificuldades financeiras, não podiam dar a assistência aos seus filhos, alimentar e medicamentosa e, ainda por outras razões como a das perseguições religiosas. Recordemos aqui Moisés, colocado numa balsa ou cesto, por sua mãe, uma mulher da tribo de Levi, o lançou, vogando rio Nilo abaixo para assim ser salvo da morte que havia sido decretada por um faraó egípcio, ordenando que todas as crianças do sexo masculino judias seriam assassinadas, tendo vindo a ser sido recolhido pela filha do rei. Talvez, em Portugal, o caso de abandono ou entregue de recém nascidos a outros, amas (mães adoptivas), abandonados ou entregues a instituições se tenha acentuado, a partir do século XIV, quando o “o cheiro da pimenta e da canela” fez com que “se despovoasse o reino” , com o embarque para as conquistas de muitos jovens que deixavam à míngua as suas mulheres e filhos. Parece e mesmo segundo a tradição,”vox populi, vox Dei”, uma das primeiras pessoas que sentiu esse descalabro foi logo no princípio do século XVI, o arcebispo bracarense Dom Diogo de Sousa que tentou, em Braga, dar algum remédio a este problema fazendo um, podemos dizer, ensaio, recolhendo uns expostos na conhecida casa do Passadiço. No entanto é uma afirmação, não documentada e, portanto, de crédito duvidoso. A ser verdade seria talvez este o primeiro albergue para expostos em Braga. Mas de certeza temos o da instalação da Casa dos Expostos no Campo de Touros (Praça Municipal). O seu local era onde hoje está o Paço de Dom José, Arcebispo de Braga, onde agora se encontra instalado o Arquivo Distrital e Biblioteca Pública de Braga, na parte voltada para o referido campo e do lado antiga capela de Santo António da Praça. Mas façamos um pouco de história. Dom José de Bragança, ao chegar a Braga, quis como Príncipe Real, estabelecer na sua cidade uma corte, já que assim vinha habituado desde Lisboa, achando que não se coadunava com a sua categoria real o paço dos antigos arcebispos. Como existia nesse lado nascente do Campo de Touros um albergue Casa dos Expostos, entrave aos seus projectos de fazer um palácio grandioso nesse local, airoso e desafogado, tratou com a Câmara, que iria também situá-la no Campo de Touros, ou do Arcebispo, nome este que vinha do tempo de Dom Agostinho de Jesus, de o desafectar do domínio camarário por troca ou escambo, conforme consta do livro de Tombos da Câmara do período de 1750, com uma casa, nesse campo edificada, e pertença do arcebispado junto ao que, onde mais tarde, foi a primeira séde do Colégio dos Órfãos. Ora, portanto, à face de documentos é esta Casa de Expostos, no local da Biblioteca, considerada a primeira casa de Expostos, ou a Chamada Casa da Roda de Braga. Resolvido o desiderato, a Casa de Expostos e Órfãos, passou a ocupar um prédio no lado norte do campo de Touros, como dissemos, entre o edifício que mais tarde foi a primeira séde do Colégio dos Órfãos de São Caetano e a casa Costas Pereira. Aqui se manteve durante perto de 150 anos até que o adiantado estado de degradação e higiene aconselhava a obras dispendiosas. Vendo, a direcção, sob a direcção do Presidente da Câmara, Dr. Jerónimo da Cunha Pimentel que muito convinha obter um edifício próprio, com mais comodidades e onde se estabelecesse definitivamente o hospício, propôs à Junta Geral do Distrito que votasse a quantia de 1:800$000 reis, para a compra de uma casa condigna destinada a tal fim não tendo a Junta anuído ao pedido Gorada esta solução, a Câmara, cujo responsabilidade pela administração dos Expostos e casa era da sua competência, viu que não tinha disponibilidades financeiras para se lançar no empreendimento. E assim depois de muitos considerandos, consultas e exposições, resolveu, estava-se quase no último quarteirão século dezanove, alugar pela fabulosa quantia de cem mil reis anuais, a casa dos Paivas, ou da rua de São João, gaveto com a antiga rua das Oussias (Rua de Nossa Senhora do Leite) e que hoje conhecemos por Casa da Roda. Passou esta a ser, portanto, a segunda e última Casa dos Órfãos e Expostos de Braga – vulgo Casa da Roda. E assim desde finais do século XIX e até cerca de 1930, serviu esta casa para albergar os expostos e órfãos não só de Braga, como de concelhos limítrofes – a princípio vinham caír a Braga expostos de Amares, Terras do Bouro, Aboim da Nóbrega, Larim e outro concelhos, alguns depois extintos pela reforma de 1850. Esses de fora do concelho de Braga, eram aqui alojados mas as despesas eram cobertas pelas respectivas Câmaras as quais pertenciam mas muitas vezes os atrasos eram notórios e a Câmara de Braga, via-se na necessidade de intimar o pagamento dos débitos. Cerca de 1930, acabaram as Casas de Expostos, em Portugal. Um decreto emanado pelo Governo, extingui-as. Em Braga era já muito reduzido o número de expostos mas havia necessidade de lhes dar uma saída. Primeiro foi tentada a sua colocação na Santa Casa da Misericórdia, que tinha recebido um importante legado para os expostos, mas isso se opôs a direcção, os médicos e enfermeiros pois achavam que não estava nas suas atribuições tratar de expostos mas sim de doentes e mesmo era um perigo levar crianças sadias para um hospital. Depois foi tentada com êxito a colocação desses miúdos na Creche de Braga, onde foram recebidos e por lá terminaram a sua estadia até aos sete anos, idade em que foram entregues às famílias que os reconheciam, ou passaram a outras instituições como, mais tarde, o Colégio dos Órfãos. Pelas gravuras que acompanham esta crónica poder-se-à localizar as casas que em Braga prestaram assistência a expostos. A gravura nº 1, mostra-nos a Casa do Passadiço, (século XVI), mandada construir pelo Deão do Cabido da Sé, D. João da Guarda, casa ou local onde possivelmente serviu para Dom Diogo de Sousa albergar uns expostos. A gravura nº2, revela um aspecto do Campo de Touros, com o edifício da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, ocupando o local onde esteve a Casa dos Expostos. A gravura nº 3, mostra outro aspecto do Campo de Touros com o edifício dos Órfãos de São Caetano, a casa dos Expostos e a Casa Costas Pereira. Nº 4, vê-se a Casa dos Paivas, ou agora conhecida por Casa da Roda. Nº5, aspecto da Casa da Roda, antes da recuperação . Nota: As gravuras 1 e 4, são extraídas do livro “As ruas de Braga”, 1750. As Nºs 2 e 3, são desenhos de João Vieira Gomes, o Dr. Chasco, 1834. . . / . . .


publicado por Varziano às 22:34
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