Sábado, 19 de Dezembro de 2009
Bom Jesus 10

Caderno 10 (cont.cad. 9) O lago mais tarde foi ampliado, já no último quarteirão do século XX, graças ao empenho e interesse de Bernardo Sequeira, prolongando para Sul, até junto de uns penhascos do qual brota a água para o lago. É sobre um deles, que resguardado por um varandim se encontra a escultura de Moisés, ao qual já fizemos referência, na atitude de com uma lança fazer nascer a água do deserto, como diz a Bíblia. Dos passeios nos barcos que ali estão ao dispor dos visitantes, que por vezes se tecem autênticas recordações de banhos forçados, que entre ditos e gargalhadas de alguns comparsas se deliciam com as peripécias. Cabe aqui contar um episódio ocorrido há longos anos e foi recordado por um casal octogenário de Vigo, que depois de uma visita guiada à cidade que acompanhamos, terminou no Hotel do Elevador. Depois do repasto esse casal de simpáticos vizinhos galegos, insistiram para os levar até ao lago. Estava um princípio de tarde de morrinha, chuva miudinha e fazendo-lhes ver que a visita que queriam, não era aconselhável pois tinham um bocado de caminho a fazer e quando chegassem teriam apanhado uma valente molha. O conselho de nada valeu, e insistiram. Dissemos-lhe então que havia um caminho mais curto, mas que para a sua idade não era de aconselhar. Não se importando de ter de subir aquele declive e mau caminho, que está por cima da gruta do adro, lá fomos até ao lago. Como sabemos o lago tem umas pontes, e os excursionistas tinham especial interesse por uma delas. Era a que está mais próxima da entrada pelo Terreiro dos Evangelistas. Lá chegados estabeleceu-se entre o casal um diálogo interessante que registamos com agrado. Disse o marido para a esposa: - Lembras-te Conchita? Quantos anos já passaram !…. Foi debaixo desta ponte que te dei o primeiro beijo. - Ó, se me lembro !... Foi aqui que te dei o primeiro banho !... - Sim, sim, e enquanto tu dançavas com um galanteador, estava eu junto das cozinheiras a secar a roupa. E assim, recordando, certamente com saudade do tempo ido, terminou o passeio naquela tarde invernosa do amoroso casal. Mas voltemos á narrativa que vimos fazendo ao longo destes já extensos cadernos. Com a administração eleita, fizeram-se muros de suporte para explanadas, abriram-se arruados pelo locais até então de cultivo ou até só de mato, aproveitou-se um talude para construir uma gruta, enfim procurou a nova administração tornar mais agradável o Parque, onde nas clareiras as árvores surgiram, dando agora sombra e frescura que hoje, nas dias e noites calmosas do verão, desfrutamos. Para isso contribuiu o Conde de São Bento, de Santo Tirso, com a valiosa oferta de Cinco contos de reis. Como os romeiros surgiam em torrentes, principalmente em dias Santificados e aos domingos, alguns vindo de longes paragens, a Administração do Santuário, pensou em lhes dar cómodos de agasalho e hospedagem. Assim criou alpendres junto ou por perto para pernoitarem e locais para recolher os carros e animais. Para maior comodidade montou tendas onde se vendia vinho e por certo algumas vitualhas – nem todos se sujeitavam a de longe as trazer – palha para dormir e cevada para as bestas. Tudo era vendido por conta da Confraria, porque não tinha aparecido comerciante que quisesse explorar o negócio. Este facto deu azo a que aparecesse um pasquim com um espirituoso epigrama: “O Juiz do Santuário Em vez de curar de festas Resolveu ser empresário: Fez-se curador de bestas. Vinde fiéis romeiros, Não vos assuste a despesa; Que o chefe dos empreiteiros Vende os sobejos da Mesa. Se o devoto traz mortalha, Leva a alma sem pecado; Mas de cevada e de palha, Leva o bucho empanturrado.” Mais tarde, foi construída a Sul da primitiva igreja, uma hospedaria que já dava relativo conforto das estalagens da cidade aos romeiros. Finalmente surgiram construídos pela Confraria, três hotéis, o do Elevador, o do Parque e o do Lago. Também a Sul, estava o Parque de Diversões, local onde hoje está o edifício conhecido pelo Casino, local que a partir dos primeiros anos do século XX, serviu para elegantes festas. Deve-se este edifício, hoje totalmente remodelado, ao arquitecto Raúl Lino. Em frente de um espaçoso largo, limitado para Ocidente por um comprido parapeito, observa-se um magnífico panorama da antiga e nobre cidade de Braga, panorama que se pode também divisar, no lado norte do Adro, perto do Hotel do Elevador, num miradouro com um telescópio, virado para Braga que deu origem ao dito “Ver Braga por um canudo”. Lá, ao longe, em dias de boa e limpa atmosfera, pode divisar-se, cintilando como um espelho, o mar. Vários foram os escritores portugueses que aqui estanciaram. No topo norte do terreiro onde está o Casino, umas escadas dão acesso a um largo onde se encontra uma mesa e bancos de pedra. Em frente desta mesa, no muro de suporte do terreiro do Casino, está colocada uma lápide que memora a estadia, por várias vezes, de Camilo no Bom Jesus. Junto ao lago, foi construído um parque de diversões, onde a miudagem se diverte e para os adultos, um campo para o desporto do ténis. Por todo o parque e à sombra de velhas e frondosas árvores, mesas e bancos para as merendas, coisa que não pode desprezar-se depois de uma visita. O MUSEU, A BIBLIOTECA E CASA DAS ESTAMPAS Em 23 de Outubro de 1916, estando à frente da Confraria o Tenente-Coronel Lopes Gonçalves, dado que as instalações onde se encontrava o espólio museológico do Santuário não tinha condições para a sua conservação, foi resolvido serem adaptadas as antigas salas da Mesa, na parte exterior Norte do Templo, para se recolherem as peças que faziam parte de um pequeno museu. Vários são esses elementos, podendo-se destacar peças de ourivesaria religiosa, pinturas, um grande tapete oriental, um grande retrato pintado por Domingos António Sequeira em 1809, ex-voto de Pedro José da Silva, grande benemérito do Bom Jesus, rememorando o êxito da feliz viagem dum barco que vinha carregado desde os portos do Oriente. Cabe aqui dizer que, popularmente, dizia-se em Braga, que este comerciante “tinha sociedade com o Bom Jesus” pois parte dos seus lucros, nos negócios que com o Oriente, os repartia com o patrono Bom Jesus. Outros beneméritos tem a sua representação nesta pinoteca, incluindo alguns Juízes da Irmandade, as telas pintadas por Pedro Alexandrino, que foram retiradas das paredes norte da Capela-mor, paramentos riquíssimos e ainda, entre outros valiosas peças, uma formosa píxide de prata dourada, em estilo Luís XVI, obra nacional executada nos começos do século XIX. A livraria, foi oferecida em 1918, por Gaspar Leite de Azevedo, de Viana do Castelo, que enriqueceu o espólio da Confraria, com uma boa e numerosa colecção de Livros. Com o aumento de dádivas, ex-votos, e também para resguardar os livros oferecidos, a Mesa viu-se na necessidade de modificar a antiga Casa da Mesa, tendo a sua modificação sido confiada a Raúl Lino. Actualmente recolhe as imensas ofertas dos militares, que estiveram na guerra Colonial e que tinham sido ofertadas, em agradecimento pelo seu regresso a salvo, das inóspitas selvas africanas, e tinham preenchido a pequena capela do Senhor em Agonia, no já citado lugar do templo. A Casa das Estampas é um estabelecimento, ao lado direito do Templo, explorada pela Confraria, destinado à venda de várias recordações religiosas, terços, medalhas e ilustrações do Bom Jesus. O E L E V A D O R F U N I C U L A R Ao visitar esta Montanha Sagrada, e experimentar tudo o que tem de notável, não deve o turista ou romeiro deixar de subir ou descer no Elevador. Quanto a nós, deve-se subir pelo escadório, a pé, até ao Templo, pois assim se pode admirar as capelas, o seu figurado, as fontes dos Cinco Sentidos e das Virtudes com toda a sua simbologia e, ao mesmo tempo, para os devotos cumprirem a Via Sacra. A subida até ao templo, pelo escadório, para alguns era muito custosa, principalmente para as pessoas idosas e, pela estrada, também o caminho não era favorável aos meios de transporte de então. Pensando nisto, um membro da Confraria, e até depois considerado como um grande benfeitor do Bom Jesus, industrial e comerciante em Braga, pessoa bastante doente procurava muitas vezes as montanhas da Suíça remedeio para o seu mal. Numa das suas visitas a este país, viu que para vencer os desníveis das montanhas suíças, usavam uns pequenos carros movidos a vapor e isto fê-lo pensar aproveitar esta ideia e pô-la em execução no Bom Jesus. Se bem o pensou, melhor o fez. Esse arrojado industrial e comerciante, não sendo de Braga, mas sim de Guimarães, dedicou a sua vida à cidade de Braga. Trata-se de Manuel Joaquim Gomes, que se destacou quando a Companhia dos Carros Americanos, em Braga, entrou em colapso financeiro, e a salvou com o seu capital. Tratou, logo que chegou à cidade que havia adoptado como sua, de levar avante o seu projecto. Assim teve de interessar os seus colegas da Confraria na iniciativa. O maior problema seria o de arranjar o meio de fazer a tracção para vencer o desnível que era e é muito acentuado. Consultou entendidos e achou a solução – o “combustível” seria água. Em Donim, um lugar perto do Sameiro, explorou uma mina e fez transportar a água, até ao depósito no cimo do Monte do Bom Jesus, na hoje Mãe de Água, onde existe um depósito, lago, que a leva até ao terraço de onde sairia o elevador. Assim os carros, um na base recebe os viajantes, e outro no cimo, enchendo o depósito, com o seu peso de água e passageiros, reboca por um cabo de aço o que está em baixo. É um sistema de cremalheira, assente em vias paralelas. É um sistema económico, não poluente, e água ao ser despejada no fundo da ladeira, ainda vai beneficiar os campos de regadio, e que vence uma diferença de nível de 116 metros em 267 de plano inclinado. É absolutamente seguro pois além de não estar sujeito a avarias, tem vários sistemas de travão um dos quais é a cremalheira que não deixa que os carros tomem velocidade. Ao lado da capela do Descimento e ao lado da estátua equestre do Longuinhos, fica a escada que dá acesso o ascensor no cimo, enquanto que em baixo, perto do Pórtico, está bilheteira para a subida. Este ascensor foi inaugurado e aberto à exploração em 25 de Março de 1882 e, cem anos depois, comemorando o evento e promovido pela Confraria e ASPA- Associação para a Defesa do Património, sediada em Braga, fez-se a repetição da inauguração, na qual estiveram representadas as Autoridades Civis e Religiosas de Braga e bem assim a Direcção da Aspa. Nota:- Para finalizar esta história sobre o Santuário do Bom Jesus, devemos dizer que haverá ainda muitos outros factos que não relatamos. Aconselhamos a que devem consultar a bibliografia que incluímos no caderno 11. Também esclarecemos que achamos que, para melhor compreensão das legendas que estão escritas em latim, optamos por as mencionar em português, tendo para isso utilizado as traduções dos vários autores mencionados na bibliografia. …/… Continua no Caderno 11



publicado por Varziano às 18:38
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