Sábado, 23 de Agosto de 2008
A Igreja Paroquial de São Vicente (3)

“A CIDADE DE ORCA ONDE NASCEU SÃO VICENTE” No outro lê-se : “SÃO VICENTE E SÃO VALÉRIO NO TRIBUNAL ( aqui desapareceu o restante ). Outro quadro apresenta : “O NASCIMENTO DE SÃO VICENTE” No lado direito um grande painel apresenta um aspecto de Braga, no alto onde se desenvolve o tema : “A TRASLADAÃO DO BRAÇO DE SÃO VICENTE Pª A SÉ DE BRAGA” Por baixo deste, um aspecto de : “SÃO VICENTE NO CÁRCERE” Ainda deste lado outro quadro fala-nos da : “TRASLADAÇÃO DAS RELIQUIAS DE SÃO VICENTE PARA LISBOA” Enfim, e agora do lado esquerdo do corpo principal, mais dois paneis nos mostram, em cima : “GLORIOSO TRÂNSITO DE SÃO VICENTE” e em baixo: “SÃO VICENTE EXERCENDO O MINISTÉRIO DA PREGAÇÃO QUE LHE INCUMBIU S. VALÉRIO BISPO DE SARAGOÇA”. Todos estes painéis ocupam, na decoração, todos os espaços vazios que tornariam o templo monótono. Os tons azuis, nuns lados mais carregados, noutros mais suaves, e o branco fazendo sobressair os desenhos dão uma imagem rica que aliada à talha dourada dos altares, constituem o chamado estilo barroco nacional. São características especiais e predominantes que se apresentam em igrejas bracarenses, como São Victor, Pópulo e outras mais, ricas em azulejos hagiográficos que recobre, inteiramente, todos os espaços das paredes. Esta maneira de preencher vastos espaços, também se aproveitou para casas apalaçadas, como a Palácio dos Biscainhos e Casa do Raio, remontadas ao século XVIII. A TALHA DOS ALTARES Já nos referimos, um pouco sumariamente, à talha dourada dos altares deste templo. Possui a igreja de São Vicente três altares que merecem a nossa atenção. De todos eles aquele que nos prende, com mais interesse, pela sua situação no topo da igreja e pela riqueza exuberante do seu aspecto, é o altar-mor. Uma profusão de concheados, folhas de acanto, capiteis trabalhados, colunas decoradas com imensos motivos, anjos e ramagens, onde o ouro lhes empresta uma forte e intensa riqueza, atestando o valor e arte dos arquitectos, mestres de talha e douradores que em Braga, no século do ouro, trabalharam em Braga. Encobrindo o trono do altar-mór ( tribuna ), uma tela pintada, parecendo recente e que é devida a um artista bracarense, representa o patrono, São Vicente. Neste altar, em mísulas, vêem-se as imagens de Santo António, São Vicente, Divino Salvador do Mundo ( dizem ser a do Santo Homem, trasladada do Arco da Porta Nova) e ainda São João Baptista. Os dois restantes altares, colocados já no corpo da igreja, e situados nos cantos do arco cruzeiro, também de excelente talha, são do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora da Luz que como o patrono atraem numerosos devotos. Teve esta igreja a enriquece-la trabalhos de dois dos mais consagrados arquitectos bracarenses. Sabe-se que André Soares (André Ribeiro Soares da Silva) e Carlos Amarante (Carlos Luís Ferreira Amarante), deixaram o seu nome ligado a este templo. Assim referindo-se ao primeiro, André Soares, são do seu risco as sanefas e caixilhos das janelas da capela-mor, desenhadas e executas em 1751. Quanto a Carlos Amarante, diz Robert C. Smith, em “Três estudos bracarenses”, revista e Boletim da Academia Nacional de Belas Artes – 2ª série, Lisboa, 1970, nº 24 a 26, pag. 63 : “… ligando-se directamente com o vocabulário decorativo empregado nos relevos da caixa do pequeno órgão (…) traçada para a igreja de São Vicente, de Braga, por Carlos Amarante antes de 1769 (a) que foi entalhada por Luís Manuel da Silva …(b)”. Por interesse para a história da Igreja de São Vicente e de alguns artistas que intervieram na feitura do órgão e demais ornamentos da referida igreja, vamos transcrever as notas que Smith nos deu e que assinalou por (a) e (b). assim as notas estão inseridas a páginas 75/76, da acima mencionada revista : (a)- “No termo da reunião de 23 de Janeiro, deste ano, lemos que “Também foy preposto q como se tinha mandado dar seis mil e quatrocentos reis pelo risco. E mudelo a Luís Fer.ª Amarante E Ester não quis aceitar por pouco e andando excortenio se venceo sa lhe dece mais mil e seiscentos reis pª com elles fazer a quantia de oyto mil reis… E outro sim foy preposto q como o organo Estava coazi completo se mandaçe satisfazer ao Mestre Luís de Sousa de sessenta mil reis dos Ecos, e andando ao excrutinio se venceo lhe mandaçe satisfazer a dª quantia e se mandou paçar Vilheta” (arq. Irmandade, Livro de Termos desde 1765 até 1772, fl. 110). (b)- “A,B.D., NTG, vol. 785, 58, 58 v. Esta talha foi vistoriada pelo entalhador Teodósio Álvares de Araújo, em Dezembro de 1769 ( arquivo da Irmandade, Livro de Termos, 1765, fls. 137 v. e 138). Foi dourada em 1774, juntamente com muitas outras peças da mesma igreja, pelos pintores Manuel da Silva, Francisco José Laranja, Boaventura José da Silva e Luís Pinheiro Lobo, todos de Braga. (ADB, NTG. Vol. 808, fls. 27 v. 28 )”. A Igreja foi também “enriquecida por um sumptuoso coro… barroco com nítida influência estrangeira ( francesa ) no espírito da época de Luís XV”. Sobre a sanefa do arco cruzeiro, reportando-nos de novo Smith e à nota nº 86 do seu trabalho “ André Soares – Arquitecto do Minho”, vemos o seguinte : “… Em 1769, desenhou ( André Soares ) a grande sanefa do arco cruzeiro, caixilhos e outra talha da nave da Igreja do Mártir São Vicente, em Braga, entalhados por Manuel Sampaio ( arquivo da Irmandade, Livro de Termos 1765-1772, fols. 170 v. e 171) e executou na mesma igreja, as ricas grades do coro e certos acréscimos da caixa do órgão, desenhada por Carlos Amarante (idem, ibidem, fols. 137 v. 138…). Pelo exposto acima o órgão, muito embora tenha sido desenhado por Amarante, André Soares imprimiu nele algo do seu génio. Smith indica ainda que Soares, recebeu em Janeiro de 1759, a quantia de 2$400 reis em pagamento do “ risco pª as sanefas de cortinado novo” da igreja de São Vicente. A T O R R E René Bazin, conhecido crítico de arte francês, referindo-se a várias fachadas de igrejas bracarenses, diz : “ Un groupe de façades de Braga, heureusemente datées, son engendréss les unes quand les autres, nous fait assister au jaillissement du baroque. Il s’agit de São Victor (1690), os Franciscano (Terceiros) (1690), São Vicente (1691) qui est un des plus glorieux morceaux darchitecture du Portugal, enfim l’eglise franciscaine du faubourg de Braga, à laquelle se trouve adjointe l’eglise ronde de São Frutuoso…” (5) Assim, a tradução livre, diz-nos : “Um grupo de fachadas de igrejas bracarenses, felizmente datadas, feitas umas quase quando as outras, fazem-nos assistir ao despontar do barroco. Trata-se de São Victor (1690), a dos Terceiros (1690), São Vicente (1691) que é uma das mais gloriosas peças da arquitectura de Portugal, enfim a igreja franciscana dos arredores de Braga, a qual está situada junto à igreja de São Frutuoso de Montélios”. Assim, sobre a torre sineira, razão deste capítulo, vamos de novo recorrer a Bazin que afirma que: “Para libertar completamente a frente da igreja que conceberam como um quadro esculpido, os arquitectos bracarenses do fim do século XVII, conceberam de uma maneira elegante, o problema das torres sineiras ( que colocada [uma só] na frente ficava [ a fachada] assimétrica), colocando-a na extremidade oriental da igreja ( nas igrejas cujas fachadas, obedecendo aos cânones se orientavam para Ocidente – casos de São Victor, Senhora-a-Branca, Pópulo (a torre velha), São Sebastião, Terceiros, Lapa, etc. – junto da sacristia como prolongamento da Capela-mor (…); resultando um alongamento do plano que acentua mais progressão decrescente dosa volumes e que dão a estes monumentos proporções graciosas, em aparece já o génio da elegância da arte portuguesa que surgiu no século seguinte ( o barroco nacional )”.

 

(Continua...)

 

Braga, 1 de Fevereiro de 2008

Luís Costa

 

(1) Tesouros Artísticos de Portugal – Edi. S.R.D. pag. 32

(2) Albano Belino – Archeologia Christã, pag. 191

(3) Discours Premilinaires, ou Tableau de L’Histoire de Églisé, pg. 432 (1758)

(4) Nóbrega, Artur Vaz-Osório- Pedras de Armas e Armas Tumulares do Distrito de Braga – cidade.

(5) Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, 2ª série nº 2, pag. 5

 



publicado por Varziano às 11:44
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